Quereis rir e esquecer a crise? Agarrai-vos aos checos!

Há um je ne sais quoi na literatura checa que me deixa atordoado. É que me rio a bandeiras despregadas (linda expressão que anda esquecida) com alguns dos seus livros. E por isso os recomendo para as férias daqueles que não têm de pensar no BES, no Montepio, na reforma da Segurança Social, na Maria Luís, no António e no Carlos Costa, no Seguro e no Tribunal Constitucional.

Ora aí vai. São três livrinhos que se leem num instante, detendo-nos, somente, para umas boas gargalhadas. O burgo tuga, mais habituado ao drama existencial francês, à pieguice classista britânica e, quando muito, aos complicadíssimos nomes russos dos grandes romances, despreza os checos, com a mesma soberba que despreza Jerome K. Jerome e o seu “Três Homens num Bote” ou, pior ainda, Mark Twain e a sua “Rã Saltadora do Condado de Calaveras”. Mas leiam e depois digam-me: devolvo o preço que pagaram por ler estas linhas caso não fiquem bem servidos.

O primeiro é

Chveik“O Valente Soldado Chveik” (na minha edição antiga era Schweik, mas isso não interessa) de Jaroslav Hasek, um Boémio (natural da Boémia, atual República Checa) que fez jus ao nome da região. Também foi anarquista. A ação do livro, que escreveu em 1911 numa primeira versão e depois da I Grande Guerra, numa segunda e mais completa reedição, gira à volta de um soldado idiota que, no essencial, tem razão na caracterização da guerra. Hasek esteve preso pelos russos, durante 1915 e mais tarde pertenceria ao Exército Vermelho soviético. Mas nada disso é relevante na obra. O livro é um hino ao bom humor pacifista e uma crítica implacável a todos os que se levam a sério, incluindo os que têm medo de ser presos por uma mosca ter defecado no retrato do Imperador Austro-Húngaro.

O segundo é:

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“Comboios Rigorosamente Vigiados” de Bohumil (Bogumilo) Hrabal.  Mais novo que Hasek revela o seu desconcertante humor neste livro que escreve em checo em 1965, e é transformado em filme pelo realizador Jiri Menzel, que faz dele um autêntico prenúncio da primavera de Praga. Aqui estamos perante a crítica inteligente, sub-reptícia e bem humorada à burocracia e aos homens que se levam demasiado a sério.

O último dos livros que hoje vos recomendo, é também de Hrabal:

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“Eu que servi o Rei de Inglaterra” (aproveito para dizer que nesta obra ninguém serviu o rei de Inglaterra) é daquelas obras que só podem ser descritas a quem as leu, porque salta de tema em tema e termina com a alegria do ostracismo e da solidão. Há igualmente um filme de Jiri Menzel (este já de 2006, nove anos depois da morte de Hrabal).

Pronto riam-se (e percebem onde foi Milan Kundera buscar aquela sua agradável loucura)

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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10 respostas a Quereis rir e esquecer a crise? Agarrai-vos aos checos!

  1. onésimo diz:

    Uma entrada destas num blogue com este título não deixa de ser irónico.
    Eu tinha ouvido falar várias vezes no primeiro dos três livros, mas não nos outros. Acabo de encomendar os três.
    Obrigado pela sugestão.
    Gostaria de poder prolongar-lhe um pouco os momentos de riso cedendo à veleidade de lhe oferecer um ou dois dos meus livros de estórias (“Quando os Bobos Uivam”, Clube do Autor, 2013, e “Aventuras de um Nabogador – estórias em sanduíche”, Bertrand, 2008). Se aceitar e me der um endereço postal, eles seguirão e com a indicação das (poucas) estórias tristes que lá vêm e que não deve ler.

    onésimo

    • Henrique Monteiro diz:

      O local onde sou mais encontrável é no Expresso – Edifício São Francisco de Salles, Rua Calvet de Magalhães, 242 – 2770-022 Paço de Arcos.
      Cá espero. Abraço

  2. Pedro Norton diz:

    Li o último e gostei muito. Mas já que estamos para lá da cortina de ferro, e num registo bem mais depressivo, li esta semana o Vida e Destino de Vassili Grossman, de que por aqui já falou il Fonseca. O Sr. Marquês que é dado a clássicos, não pode perdê-lo.

    • Henrique Monteiro diz:

      O velho Grossman é de facto deprimente. Li-o em 2008 para aí. Mas é duro que se farta

  3. Henrique, tu que de Espanha encontraste bom casamento, devias era rir “a caderas despegadas”, expressão castelhana da qual as nossas bandeiras despregadas são uma corruptela engraçada. Ao dispor, 🙂

  4. llopes49 diz:

    Que bonito é ver um Jovem culto e desempoeirado ,referir um dos meus preferidos ,o Soldado Schweik que,pensava ser coisa de velhos pandegos. Parabéns. Vou procurar os outros.

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