Requiem – subir a colina, intensa luz e descanso?

Requiem æternam dona eis, Domine,
et lux perpetua luceat eis.
Te decet hymnus Deus, in Sion,
et tibi reddetur votum in Ierusalem.
Exaudi orationem meam;

Estava muito bem a ouvir o Requiem, que sendo uma oração pelos mortos, faz bem à vida – porque como disse essa enorme filósofa cujo nome nem preciso citar, estar vivo é o contrário de estar morto – quando reparei no início da oração:

“Repouso eterno, dá-lhes, Senhor
E que a luz perpétua os alumie
Oferecemos-te um hino, Deus, em Sião
E os teus votos serão redimidos em Jerusalém.
Ouve esta minha oração, etc. e tal

(Socorro, Ivone, que eu em latim sou um nabo e tu és uma mestra, corrija lá a latinada).

De qualquer modo, estava eu a ouvir isto e interroguei-me sobre o repouso eterno e sobre a luz perpétua. Quer dizer, há aqui duas coisas para sempre, infindáveis – luz e repouso. Mas já repararam como na vida a luz e o descanso, normalmente não vão a par. Quando descansamos queremos pouca luz; quando queremos muita luz não estamos a descansar.

Sem querer ser acusado de “neo-literal” por levar tudo à letra – incluindo à letra do Requiem, gostaria de dizer que isto prova, de facto, que na morte as coisas são ao contrário da vida: Há luz, há repouso, há hinos – o que também não bate certo com o repouso, sobretudo se for o Hino do… (não escrevo que o Manel expulsa-me, ia a dizer do Benfica, com aquela coisa das papoilas saltitantes) e há Sião e Jerusalém.

Monte Sião

Monte Sião, onde estava o Templo de Salomão

Mas. espera aí, Sião (ציון) não era a fortaleza Jebusita próxima de Jerusalém onde inicialmente estava o Templo de Salomão, cuja prova histórica não existe? Apesar de a colina hoje fazer parte da cidade de Jerusalém (ירושלים) já temos de andar de um lado para o outro, enquanto oferecemos o Hino e redimimos os votos. 

Estou a ver que estar morto é uma canseira: luz, hinos sobe a colina, desce a colina… E depois querem que repousemos eternamente.

Estou, portanto baralhado e apreciaria ajuda (que não seja um colete de forças).

Obrigado!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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Uma resposta a Requiem – subir a colina, intensa luz e descanso?

  1. nanovp diz:

    Eu cá continuava a ouvir o Requiem , de noite com a luz apagada…

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