Salgado, os abutres e a natureza humana

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Enquanto fui diretor do Expresso tomei uma vez o pequeno-almoço com Ricardo Salgado. Estava-se no rescaldo de um longo corte de publicidade que o seu Banco tinha imposto ao grupo Impresa, por causa de um artigo de Jorge Fiel (era esse o argumento), em que se considerava Ricciadi “um rinoceronte numa loja de porcelana”.

Salgado quis-me dizer que já nada havia contra o Expresso e o grupo e eu disse-lhe que o Expresso nunca tivera nada contra o BES, porque o Expresso é independente e trata os bancos todos de igual modo, sendo que o nosso Norte é chegar o mais próximo possível da verdade. Acrescentei que o artigo de Jorge Fiel correspondia a uma forma de expressão própria daquele jornalista, e que a sua liberdade no Expresso era total (na altura Fiel, hoje diretor adjunto do Jornal de Notícias, era editor do caderno de Economia).

Nunca mais voltei a falar com Ricardo Salgado, salvo rápidos apertos de mãos e palavras de circunstância em ocasiões sociais.

Mas retirei (juntamente com colegas meus da época) ensinamentos daquele encontro. O principal dos quais, foi no seguimento de um reporte da jornalista Isabel Vicente, que convidada pelo BES para o que ela julgava ser um seminário sobre banca, descobriu que se tratava de umas férias na neve que muitos colegas nossos (não do Expresso, que lhe calhara a ela ir) adoraram. Das conclusões retiradas, além de ma reportagem sobre “viagens de charme”, incluímos no Código de Conduta do Jornalista do Expresso os seguintes artigos:

“16. JORNALISMO FINANCEIRO

Mesmo quando a lei o não proíba, o jornalista não pode usar em proveito próprio, nem transmitir a terceiros, informação financeira reservada que tenha recebido ao abrigo da sua profissão. Um jornalista não pode escrever, editar ou influenciar uma notícia que envolva interesses financeiros e patrimoniais próprios ou de familiares.

Os jornalistas e toda a cadeia hierárquica editorial devem abster-se de comprar e vender ações de empresas. Esta norma não envolve as ações das empresas do grupo Impresa.

Cada vez que um acionista de referência do jornal seja citado, esse facto deve ser assinalado no texto.

17. OFERTAS

É proscrita a aceitação, pelos jornalistas, de ofertas cujo valor ultrapasse 10% do salário mínimo nacional.

Destas ofertas deve ser dado conhecimento à Direção do jornal. As prendas devem ser devolvidas ao expedidor, acompanhadas de uma carta cortês e justificativa (cujo modelo o jornal disponibiliza).

20. VIAGENS

A aceitação de convites para viagens – seja em comitivas oficiais, seja de entidades privadas – está sujeita à autorização prévia da direção e ao reconhecimento do seu interesse jornalístico.

Qualquer serviço apoiado por terceiros só pode ser publicado se acompanhado da respetiva menção em local bem visível.”

Estes preceitos têm quase uma década. Não foram feitos depois de conhecido o caso BPN ou outro caso qualquer, como o caso BES. São princípios basilares do jornalismo, a que no país quase ninguém liga.

Quando vejo Augusto Santos Silva responsabilizar também a imprensa pelo caso BES fico triste. E fico triste, porque aquilo que foi aprovado por nós (a direção era, além de mim, constituída por Cândida Pinto, Nicolau Santos e João Garcia) há tanto tempo (em concreto o Código foi escrito pelo redator principal José Pedro Castanheira) não levou nenhum Augusto Santos Silva nem qualquer redator a escrever: “Ponham ali os olhos”, ainda há gente séria. Fico triste, porque numa Comissão Parlamentar de inquérito no Parlamento em que se pretendia saber das pressões sobre os jornais eu disse alto e bom som que a maior pressão que o Expresso tinha sofrido fora do BES… mas nenhum deputado quis aprofundar o tema.

Agora, que Salgado caiu, vejo uma série de abutres precipitar-se sobre ele e a família. Querem prisões sem julgamento, querem expropriações sem processo.

E afinal, o que é isto?

É a velha natureza humana a funcionar.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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10 respostas a Salgado, os abutres e a natureza humana

  1. Carlos Ribas Monteiro diz:

    Depressa passou o Bes de bestial a besta…

  2. josé moutinho diz:

    Sobretudo falta de rigor e ética na praxis das nossas vidas!

  3. rodrigo Sousa Castro diz:

    Nada do que o Henrique Monteiro disse, retira a justeza daqueles que agora proclamam em alta voz as vigarices de R ESanto e lhe apontam culpas.. Conheço o Expresso desde a sua fundação e os seus directores, a quem presto a minha homenagem de gente isenta e profissional. Sem esquecer Francisco Pinto Balsemão , um homem de direita mas às direitas. Acontece porém que muita gente que eu conheço, confiou na idoneidade de RES e ” famiglia” e hoje está na miséria. Ele não tem o direito de se safar como se safou dos bonzinhos dos capitães de Abril em 75. Acho que deve pagá-las e com lingua de palmo, incluindo com os bens, enormes, que retirou de mais valias fraudulentas.

    • M. Cecília Raposo Magalhães diz:

      Subscrevo todas as suas palavras ! Merece ser bem castigado … muito triste

  4. Jose Vieira diz:

    O portugguês está-se a tornar tacanho…e cobarde! Quando o elefante está saudável, ninguém o enfrenta e todos lhe abanam a cauda…quando o animal está de joelhos…todos lhe batem!

  5. António Barreto* diz:

    Pois é caro Henrique; a velha natureza desde o Australophitecus Africannus!

  6. Pastor diz:

    É tudo gente séria, mas roubaram-me o capote.

  7. Parabéns Srf. jornalista.pelo artigo e pela lição que dá ais descamisados deste país !!

    Também a mim me enoja a diabolização que fazem de Ricardo Salgado…que não conheço…. eu sou um micro+micro+micro lesado porque foi na palavra do Passos Coelho, Ministra das Finanças e do Desgovernador do BP e comprei acções no aumento de capital…em resumo…fiquei com o futuro mais compremetido … estes sim é que deviam ser julgados em barra de Tribunal !!!…

  8. llopes49 diz:

    Gostei do seu escrito ,gostei e muito ,porque contém uma lista de “deveres” de Cidadania e como sabe melhor do que eu ,às Cesarinas não lhes bastava serem Sérias ,tinham de parecer . O sr do Bes vai safar-se ,é dos Livros .Tenho muita pena deste meu Pais.

  9. mónica diz:

    um bode expiatório dos bons eheheh rico e tudo!
    a justiça não há meio de cegar…

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