Visão, tenha duas: Daqui para a frente a contagem é outra

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Hoje, para mudarmos de águas, a Visão é a New Yorker, uma revista americana.  O Manuel S. Fonseca e eu ficámos a olhar para esta capa de praia. Será que vamos ver os mesmo três pares de pernas que o ilustrador levou a banhos? 

DAQUI PARA A FRENTE A CONTAGEM É OUTRA

São três homens ou o mesmo homem? Decido que são as três idades do homem como Klimt decidiu pintar as Três Idades da Mulher – o despotismo assenta-me bem. Talvez este três em um esteja a banhos nos Hamptons. Ir a banhos nos Hamptons é como ir a banhos no Algarve, é tudo praia mas é tudo diferente: a Quinta do Lago não é Quarteira e a Deserta não é Monte Gordo. Mas hoje a geografia social do banhista nova-iorquino ou portuense ou lisboeta não me interessa uma pevide de melancia. O que me interessa então?

Brincar ao e se.

Eu sou o tipo do meio mas em mulher. Que quer dizer isto? Já vivi mais anos do que aqueles que tenho para viver. E a consciência disto muda uma pessoa, ou pelo menos mudou-me a mim.

Uma noite, no México, estava o céu mais preto que jamais vi, e uma lua cheia, dourada, mesmo em cima da água preta, desenhava a yellow brick road nas ondas. Só me apetecia entrar no mar, not in Kansas anmyore, fazer o caminho, subir e desaparecer na maior lua que os meus olhos um dia viram e ainda não acreditam. Não era tristeza. Estava infeliz.

Pensava que ser feliz era uma coisa circunstancial sem me passar, então, pela cabeça que também eu era circunstancial. Depois lembrei-me de quando era tão feliz, em  pequena, e o mundo estava ainda por dividir entre dentro e fora de mim, do sentimento daquela enorme, imensa alegria que contagiava tudo: uma força avassaladora de vida, até as lágrimas dos desgostos infantis lhe cabiam no riso, e eu estava nela.

Demorou algum tempo. Não muito. Uma ruptura transformou-se numa descontinuidade. Amén. E acho que talvez tenha percebido. Fiz-me editora da minha existência. Imaginei uma sala de montagem, daquelas de antes, e o corta e cola de fotogramas, e o arquivo de tudo o que não serve para usar mas serve para saber mais, decidir melhor o que incluir e excluir. Ter uma visão da vida como um todo. Na verdade, foram as palavras do Ruben A. , entraram-me pelos olhos adentro e, eucarísticas, fizeram-se carne da minha carne, não as escrevi, mas são minhas: Dos 40 aos 50 limpa-se a casa, põem-se as telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental e no jardim das delícias, depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra. Também é verdade que ainda não atingi o meu pico – sou uma late bloomer, fazer o quê? Cada um tem o seu tempo. O meu passa devagar.

Não penso que as minhas circunstâncias me determinem mesmo quando não tenho pulso para as determinar – e quem é que quer esse controlo todo sem margem para o maravilhoso desconhecido? Antes de qualquer outra coisa sei que sou um processo que caminha para a origem. Dizem-me que morrerei. Pois sim, é verdade, e nem por isso deixarei de estar viva na minha natureza essencial que é a da própria vida. Sei que por um milagre de Groundhog Day, à vida, tenho-a de fresco e a alegria intocada, com a vantagem de ter um arquivo organizado e cheio de milhares de gestos, palavras, paisagens, gentes que trago na retina e até eu mesma lá estou: quando observada por mim sou mais uma.

Estou na figura do meio. E nas outras duas também. E que bem se está à beira da água.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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3 respostas a Visão, tenha duas: Daqui para a frente a contagem é outra

  1. É bom, para não dizer essencial, ser-se editor da própria existência.

    • EV diz:

      Tive sorte: de só aprender tarde o que tantos aprendem cedo, tenho um monte de começos onde poderia ter fins.

  2. Cidades para tomar banho in history (spoiler: não há nenhuma americana):

    http://matadornetwork.com/trips/40-last-storybook-towns-left-europe/

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