Visão, tenha duas: Eu quero que você venha comigo

Agosto b

Meia-noite, um avião e duas Visões. O Manuel S. Fonseca e eu ficá­mos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos no avião que cada um de nós tomou. São duas Visões. E a sua?

EU QUERO QUE VOCÊ VENHA COMIGO

A minha mãe passou uma fase brasileira em Portugal. Foi uma coisa atípica como o disco do Joe Dassin, um verão indiano em vinil, quero dizer, um verão brasileiro já depois do Brasil de facto e já sem Baía alguma apesar do Caetano e da sua mana, do branco, das missangas e pedrarias: a coisa passou-se a toque daqueles dois irmãos, e de Caetano e Chico Juntos e ao Vivo, e da Construção de Chico Buarque, então pré-romancista, bom compositor, bom letrista, portanto, poeta a soldo.

Confesso, o Brasil baiano não me é uma terra estranha, nem na linha da paisagem urbana, nem no fogão nem na literatura, nem na batucada, nem nos recessos do pensamento. O resto do Brasil, sim, só em segunda mão o conheço e amo: Guimarães Rosa, Adélia Prado, Drummond, Vinicius, Pixinguinha, Machado, e toda uma grande roda de amigos em samba de páginas de livros ou pelos ouvidos, mortos e vivos – agora foi-se Ubaldo, que pena, mas é assim. Tenho esta característica terrível: tudo me fica no ouvido. Se tudo quanto li fosse em audio-livro faria uma figuraça, todavia para tudo quanto li, ó, a memória é uma ameaça. Enfim, o resto do Brasil foi em classe turística: olhei e não vi. Adiante.

Gostava tanto de escrever sobre a TAP e tal, dizer que uma porta-bandeira, perdão, companhia de bandeira é fundamental, luso-brasileira com Fernando Pinto de mestre-sala, e logo esta, a minha preferida ainda que, poeta sem soldo, descapitalizada, tivesse de deixar de sambar, céus!, voar nela. Gostava. Não pode ser.

Mal vi o avião de nariz empinado no ar, deu-me um verão indiano em vinil brasileiro e ai que vontade de voar juntos e ao vivo, de construção de amor contigo desta vez como se fosse a única, vontade de eu quero tocar fogo neste apartamento, de tem que saber que eu quero é correr mundo, mesmo se você não entende nada do que eu digo, eu quero é ir-me embora, eu quero é dar o fora. E quero que você venha comigo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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6 respostas a Visão, tenha duas: Eu quero que você venha comigo

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Eugénia, com um avião musical destes vai dar a volta ao mundo e tocar fogo em cinco continentes!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Vou já fazer as malinhas…

  3. riVta diz:

    eu cá sou mais saloia…primeiro que me arranquem!

  4. EV diz:

    Somos todas um bocadinho arranquem-nos… quem é que quer alguém sem força anímica?

  5. Fatima MP diz:

    Arranquem-nos, Eugénia, a sério …?? Pensei que era “quando chego em casa nada me consola” …?

  6. EV diz:

    E é Fátima, mas depois, antes é preciso que alguém nos convença…

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