Visão, tenha duas: Geração Hello Kitty, talvez a morte nos salve


Fergusson, Missouri_Eric Drooker

Meia-noite na manifestação. E aqui estamos, o Manuel S. Fonseca e eu, cada um a dizer de si. Ou será de nós?

GERAÇÃO HELLO KITTY, TALVEZ A MORTE NOS SALVE

Sou filha da geração que se manifestou. Da que saiu à rua e fez a revolução sexual e a reforma agrária. O Maio de 68 e Abril de 74. Sou filha da geração que fez uma pirueta do caraças e depois do amor livre casou, e depois da nacionalização privatizou.

Por sorte, também sou filha dos meus pais e neta dos meus avós. Por sorte, talvez isso nos salve: isso é cada um de nós ter um universo particular a navegar outra órbita, imprevista porque microscópica: geração de átomos pulverizados. Digo por sorte porque a minha geração, como todo, não tem voz – é natural, a geração dos nossos pais falou muito e muito alto, e toda a gente sabe que o ruído provoca a surdez, e que quem não ouve, não fala. Se geração dos nossos pais falou muito e muito alto, talvez, por sorte, os nossos pais no nosso universo particular tenham falado um pouco menos, e um pouco mais baixo.

Eu chamo à minha geração a Geração Hello Kitty – ao menos a Pequena Sereia deu a sua voz por pagamento a uma feiticeira para que ela substituísse a sua cauda de peixe por um lindo par de pernas com o qual caminhou na direcção do seu sonho de amor. Não somos a Pequena Sereia, nenhum sonho geracional nos move. Nascemos todos de novo em 74, como a Hello Kitty, a menina gatinha branquinha, tão inha, sem boca nem boquinha.

Nós, geração, não temos boca: somos os filhos bem comportados dos nossos pais. Não temos ideais políticos, nem artísticos, sequer um ideal do eu que não seja de empréstimo. Somos o sonho de qualquer político de quinta, o público de um escritor menor, as palmas na peça de merda levada à cena. Somos a abstenção e a omissão num silêncio nada inocente, pulverizados e ferozes, cada um no seu casulo de descontentamento ou abundância, e sempre falta. Quem está ao nosso lado? Ninguém sabe.

Somos as cabeças do corpo de Hidra. E nem sabemos que esperamos Hércules, como ele não sabia que do veneno da Hidra morreria.

Perdemos o mundo por pouco. Meia dúzia de anos acima ou abaixo e seríamos mais de nós mesmos. Quem seríamos, então?

A verdade é que a geração dos nossos pais refez o perfil do ocidente, do pensamento à economia. E outra vez o refez quando os ideais se falharam na própria concretização. Inventaram a esquizofrenia ocidental. Nós nem isso.

Mas como geração de desconcertados actos colectivos, mil cabeças à espera de Hércules, cavalos cada um a puxar nas quatro direcções do mundo, havemos de rasgar a carne: talvez então a morte nos salve e possamos enfim viver.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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9 respostas a Visão, tenha duas: Geração Hello Kitty, talvez a morte nos salve

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Mas que avaliação tão drástica. A sua geração, uma e meia ou duas gerações depois da minha, tem méritos: a vida em liberdade e em “paradigma normal” (não revolucionário) é, a meu ver, a mais difícil de viver em ética e estética. Há países, com longa vida de democracia, que passam tudo isso de pais para filhos. Aqui, a geração que tinha bibe no 25 de Abril, teve de aprender sem mestre a viver num mundo novo. É muito mais obra do que parece.

    • EV diz:

      Também tem razão: o que diz e o que digo não se excluem mutuamente. Mas penso que o valor desta geração estará mais no indivíduo do que no colectivo.

  2. A. diz:

    Minha querida, sua escrita me agrada muito. E não se engane, até mesmo o silêncio é capaz de gritar.
    Não tenho palavras suficientes para escrever aqui… Então, deixo uma carta de CL, que de alguma forma, como o seu texto, me faz pensar sobre como estamos “vivendo”. Perdoe me o “comentário” tão longo.
    Um abraço! 🙂

    Carta Clarice Lispector [A Tania Kaufmann]

    Berna, 06 de janeiro de 1948

    Minha florzinha,

    recebi sua carta desse estranho Bucsky, datada de 30 de dezembro. Como fiquei contente, minha irmãzinha, com certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há muita coisa viva em mim. Mas não, minha querida! Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você. Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo. Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos levar de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? assim fiquei eu… em que pese a dura comparação… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus aguilhões – cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que nos leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida – eu me transforme inteiramente. Mariazinha, mulher do Milton, um dia desses encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lassidão de mulher de cinquenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então… Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia – será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber – pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade de alma. Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer o que você deseja – seja sair nos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras – porque como poderíamos fazer bem uma a outra sem esse mínimo de sinceridade? Que o ano novo lhe traga todas as felicidades, minha querida. Receba um abraço de muita saudade, de enorme saudade de sua irmã

    Clarice

    • EV diz:

      Cara A.,

      muito obrigada e também pela carta de CL. Isto “nunca se sabe qual é o defeito que sus­tenta nosso edi­fí­cio inteiro” é uma verdade e pêras: não há Caduceu sem serpente.

  3. Júlia diz:

    fiquei a pen­sar neste seu texto, Eugé­nia. con­cordo con­sigo em grande parte, mas creio que a gera­ção “pré-revolução” jus­ti­fica, em parte, o apa­re­ci­mento da hello kitty. não sendo mili­tante de nenhum par­tido (ape­nas uma ten­dên­cia mater­nal para o pan, pelos ani­mais), digo que muita da res­pon­sa­bi­li­dade de se ter che­gado a este estado lamen­tá­vel vem dessa gera­ção, que depois de lutar pela uto­pia, a tro­cou por tachos e tachi­nhos, sub­sí­dios bem des­vi­a­dos. uns que­riam a liber­dade, outros a igual­dade, outros a dig­ni­dade, outros o fim da guerra, mas muito pou­cos con­ti­nu­a­ram a lutar por um país novo, caso con­trá­rio, nunca tería­mos os mes­mos acto­res polí­ti­cos (difí­cil não os ver como acto­res), pas­sa­dos estes anos todos. nunca tería­mos esta (falta de) jus­tiça, nem este rombo orça­men­tal.
    resu­mindo, não sei se as gera­ções antes e depois 25/4 fazem grande dife­rença, se não tiver­mos em con­si­de­ra­ção as mudan­ças soci­ais impor­ta­das da europa. creio que o por­tu­guês, na sua gene­ra­li­dade, é um hello kitty. não me leve a mal, não digo que não hou­vesse gente que cri­ti­cava o regime, que tinha ide­ais e lutava por eles, até com san­gue, mas a mai­o­ria ape­nas ergueu o punho depois do golpe.

    • EV diz:

      Sabe, Júlia, a despeito de todas e das mais justas razões a responsabilidade não pode ser da herança – ou pode? Acredito, mas é coisa pessoal, que é do que fazemos com ela. Sem um ideal, político, ético, estético, religioso, enfim, quem somos?

      • Júlia diz:

        é impossível separar a herança do que somos (e por que razão assim somos), no colectivo. mas, sim, há uma fatia da culpa que é nossa.
        a hello kitty é uma excelente metáfora, é mesmo.

  4. nanovp diz:

    Também houve muito que se perdeu e deturpou na ilusão da “multidão”, o mundo só se muda de dentro para fora…mas claro que sim, é preciso ter boca e ir lá para fora apanhar chuva e vento….

  5. A. diz:

    Querida Eugénia, entendo agora como o silêncio pode ser “perigoso”.
    Um abraço! 🙂

    Poema da Omissão, de Vladimir Maiakovski

    Na primeira noite
    eles se aproximam
    e colhem uma flor
    em nosso jardim.

    E não dizemos nada.

    Na segunda noite,
    já não se escondem:
    pisam as flores,
    matam nosso cão,
    e não dizemos nada.

    Até que um dia,
    o mais frágil deles,
    entra sozinho em nossa casa,
    rouba-nos a lua, e,
    conhecendo nosso medo,
    arranca-nos a voz
    da garganta.

    E, porque não dissemos nada,
    já não podemos dizer nada.

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