A Arte da Ligação

images (2)Vivemos ligados virtualmente mas desligados na realidade, física. Distanciados.

Lembrei-me disto ao voltar a olhar a obra de Chillida, o escultor basco que antes tinha sido jogador de futebol e arquitecto.

Em Chillida tudo é aproximação na expectativa da ligação, do contacto

Peças que se querem encaixar umas nas outras. Encostar aqui e ali.

images

Primeiro separadas, ainda distantes. Depois aproximam-se, como nós mesmos nos aproximamos da vida, ou como nos deveríamos aproximar daquilo que faz mais sentido na vida…

Por fim ligam-se ao ponto de não sabermos onde começa uma e onde acaba a outra.

Tornam-se unas. Contínuas.

images (3)

De todas essas ligações “Peine del Viento” em San Sebastian é testemunha ímpar. Três peças encrostadas na rocha saída do mar. As peças distintas e separadas ligam-se à terra, ao vento e transformam-se na rocha que se deixa lamber pelo oceano.

el-peine-del-viento-imagen-total

 

 

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

2 respostas a A Arte da Ligação

  1. Beatriz Santos diz:

    A ligação virtual tem natureza específica e é um caminho ainda não inteiramente percorrido. Se não impeça ou substitua por inteiro a ligação física…tudo bem.

    “Peine del Viento” é muito bonito, está ligado à rocha, mas nunca é ela.

    • nanovp diz:

      Penso que ainda não vímos bem o que a virtualização pode fazer à realidade física…”Peine del Viento” parece estar ligado a toda a terra mas como diz consegue separar-se em partes também…

Os comentários estão fechados.