Crónicas da Terra do Gelo e do Fogo (1)

No verão de 2006, os Sigur Ros, depois de uma longuíssima digressão pelo mundo que os catapultou de vez para o estrelato, decidiram voltar às raízes. As raízes da sua música, que é o mesmo do que dizer do país que os viu nascer, a Islândia – e que mais coisa menos coisa, são também as raízes da criação do mundo. O som dos Sigur é uma espécie de guia musical da geografia de um tempo em que o fogo e o gelo predominavam, de um tempo em que o homem, hélas, ainda não afirmara o seu domínio sobre a natureza. Porque me fizeram imaginar todo um país através da capacidade ilustrativa da sua música, foram os Sigur Ros, oito verões depois desse verão de 2006, e depois de o meu espírito muito por lá ter vagueado, me fizeram visitar esse princípio do mundo que é a Islândia. Isto depois de ter revisto vezes sem conta o maravilhoso documentário Heima (casa, em islandês), através do qual ficou registado o seu périplo pelas mais remotas localidades da Islândia, no tal verão de 2006, onde, sem cobrar um cêntimo, e como forma de retribuir ao país tudo o que o país lhes deu, tocaram para comunidades incrédulas de tanta dádiva. Desse registo fica aqui um excerto – um excerto do concerto em Isafjordur, que é, talvez, a mais longínqua das cidades islandesas (e “cidade”, na Islândia, país que tem pouco mais de 300.000 habitantes, dos quais dois terços se concentram na capital Reykjavik, é um eufemismo para “aldeia” ou “povoação”), afastada do mundo por dezenas de quilómetros de fiordes, acessíveis através de estradas que, no inverno, ficam intransitáveis. São quase dez minutos de pura magia para ouvir bem até ao fim (e é quase no fim que surge o grande momento musical e cénico deste Sé Lest).

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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3 respostas a Crónicas da Terra do Gelo e do Fogo (1)

  1. nanovp diz:

    Afinal quando o “Homem” quer tudo é possível…bela musica que lembra a infinito….

  2. Bernardo, os Sigur Ros são meros executores de um som que a própria natureza produz.

  3. São cidades que não valem um pussy:

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