O Pianista

piano

O cenário:

Um jardim iluminado de noite. O pano de fundo.

O piano. Pronto. Aberto.

O pianista sentou-se e tocou.

O publico:

Silencioso. Ouviu. Ficou mais silencioso. Reconheceu alguns acordes. Reconheceu-se nas melodias. Recordou.

Recordou-A. Sentiu-A. Imaginou-A, mais uma vez sem guitarras nem xailes negros.

E vieram todos os barcos negros e loucas. Deu-se mais uma vez de beber à dor. Que cada vez é mais e tanta. Choraram-se céus de Lisboa e os corações bateram todos na minha mão. Pequena, para tanta bateria.

As árvores iam ficando cada vez mais verdes. Mais vivas. E os morcegos arrastavam linhas em forma de andorinhas.

As personagens:

Sobre o verde, um vestido vermelho. Uma mulher que não cabia nele. Que não cabe no seu corpo. Rasgou o vestido ficou nua a esvair-se em sangue e com a sua voz inundou o palco. Sangue por toda a parte.

O pianista segura-a e ela empurra-se nele. Deita-se nele. Faz dele sua sala. Morde-o nos seu lençóis.

O jardim tão bem iluminado. Cada vez com mais luz. Um casal de patos deslizam na superfície das águas. É de noite. Tão de noite. De todas a menos sombria.

ELA ouve-se por toda a parte. Está. Canta com ele no intermezzo.

O pianista nunca esteve só.

Vem outra mulher. Roxo. Índigo. Violeta. Celestial. Palomas.

Todos os gemidos de mulher, criança, tortura, todos gemidos que se quer, na sua voz. Todos os choros baixinhos deste mundo e também do outro. Chora baixinho em silêncio. Chora por uma lágrima tua.

Puxa o vestido, senta-se, abre as pernas e dá. Vida. O ritmo escorre-lhe do cabelo. Pinga-lhe para a mãos. Toca num cajón, lendas Catalanas.

O pianista a corda a mulher a mulher acorda o pianista.

O Homem e a Mulher dentro do piano. Mãos, pernas, bocas, pestanas. Choram um encontro, tantos segredos.

ELA voltou.

Por breves instantes ELA existiu num sítio, pertencendo a outro. Quase nunca é possível. Quase. Nunca. Palavras com tempos diferentes, uma afirmação.

Nem sempre é possível, mas hoje ELA prendou-nos.

Por instantes, o pianista, segurou o tempo e ELA cantou como só ELA sabe cantar.

ELA já estava em todo o lado. Nas árvores, nos morcegos, nos números das cadeiras, nos vestidos roxos e vermelhos. Dentro do piano fora do piano. Em todos os microfones. Em todas as cordas e acordes.

Eu, tinha tantas saudades.

É meu segredo, é meu segredo. Mas insististe e digo-te com voz de móvel que estala.

 

Nota: Este texto foi escrito depois do concerto de 5a feira dia 11, na Gulbenkian e é obviamente, minha interpretação livre sobre o maravilhoso espectáculo que vi, das melodias que tão bem recordo e das letra/poemas que sei de cor.

Júlio Resende, tocou ao vivo o seu último disco Amália e convidou Gisela João e a Catalana Silvia Perez Cruz para cantarem com ele. Foram audazes em cantar temas da Amália, mas não decepcionaram. Grande entrega de todos. Júlio Resende disse no inicio do espectáculo que naquela noite estávamos cheios de sorte.  Acertou.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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16 respostas a O Pianista

  1. Sara vasconcelos diz:

    Que Maravilha!

  2. A. diz:

    Fantástico texto! Gostei muito. 🙂

  3. Aida Pereira diz:

    Magnífico, lindo, soberbo!

  4. Beatriz Santos diz:

    Oh! Ainda bem que o espectáculo foi bom e agradou! Um texto assim tem que ter tido origem num encantamento. E as pessoas estão bem precisadas de qualquer coisa a encantá-las.
    Bem gostaria de ter assistido, mas o possível é limitado.

  5. Ó que eu perdi, Sandra. Sorte a minha que recuperei quase tudo através do teu texto tão musical, tão visual, tão Amália. Sinto-me como se tivesse lá estado.

  6. nanovp diz:

    Pareceu bem mais do sorte Sandra….

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