O tijolo quente de Agustina

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a Bíblia que já sabem: 15 livros dentro de uma caixa de acrílico que mandei fazer na China…

Mistério e graça talvez sejam as principais virtudes dos textos de Agustina. Ou seriam se não houvesse, por vezes, também a irrupção de uma irreverência que beija ao mesmo tempo o escândalo e a perplexidade. Há 13 anos, convidei-a a escrever a apresentação do Cânticos dos Cânticos, na Bíblia que já sabem se andam a ler este blog como deve ser. Ofereceu-me o texto que aqui vos trago. Nele, a começar no título que não é bem de apascentar açucenas, não encontrarão lugares comuns e muito menos eflúvios erótico-dominicais. É um texto de camas, poder, ciúmes e traições. Qual metafísica, um dia alguém tem de falar da radical materialidade de Agustina.

Biblia Agustina

o cântico de Agustina. Tem garras

Um tijolo quente na cama
Agustina Bessa-Luís

A Igreja tem tido um enorme empenho em qualificar o Cântico dos Cânticos como uma obra de inspiração mística. Contudo, a história bíblica e um simples olhar sobre a natureza humana dizem-nos muito do carácter profano desse poema lírico. Meditações sobre o Cântico dos Cânticos são numerosas. Mas o senti­do que lhe é atribuído não difere, sendo o modelo dos seus intérpretes Orígenes. Tanto Orígenes como São Bernardo e Guilherme de Saint-Thierry consideram o Cântico dos Cânticos um poema nupcial. Não núp­cias da terra mas do céu, se bem que a linguagem seja singularmente erótica e mundana. É escrito como um drama, em estilo cénico, com personagens e mí­mica correspondente. Historicamente é atribuído a Salomão quando do seu casamento com a filha do Faraó do Egipto. Mas há outras explicações, teses e argumentos sobre esta obra extraordinária. Segundo novas fontes a que a razão teológica é alheia, aparecem motivações dum amor activo, mais propriamente um amor sensual com tendência à perfeição, como indicam as etapas ascen­dentes do poema.

Quem era a Sulamita? Provavelmente ela fica incluída no mistério da fé dum homem comovido pela contemplação da beleza. Beleza do amor iluminado pela inteligência vinda do alto. Começando como homem carnal, a med­itação sobrepõem-se à visão conduzida pela razão, dando lugar ao conhecimento do espiritual. Tudo isto convém ao percurso do rei Salomão, poeta mas não sentimental, eterno e íntimo parceiro dos segredos obscuros.

Na sua grande velhice, o rei David, triste como um perdigueiro, dormi­tava no seu grande leito vermelho. Digo vermelho porque é uma cor real e cir­cundante dum trono antigo. Às vezes pedia para o levarem à tenda onde esta­va a Arca da Aliança, e ele chorava ao vê-la, como se fosse uma mulher ama­da. Como Orígenes diria, “não tinha forma nem beleza”, referindo-se à majes­tade divina.

Para dar algum calor ao velho rei David, procuraram-lhe uma jovem que se deitaria com ele como uma mulher parida com o seu filho. Era Abisag, de Sunan, terra ao norte de Jerusalém e habitada por gente nómada, fazedora de tapetes. Era tão formosa e encantadora que os olhos da corte não se arredavam dela noite e dia. Mas o rei David, pela sua extrema idade, não lhe tocou e deixou-a virgem. Quando ele morreu verificou-se que a desposara. Ao ser repartida a herança de David, o seu filho Adonias, que pretendia reinar e por direito sucedia ao rei, intrigou para se rodear de gente influente, sendo um deles o sacerdote Abiatar. Porém, os valentes de David e o profeta Natan não o seguiam. Sendo despojado dos seus direitos pelo pai, pareceu conformado. Mas o despeito ardia no seu coração. Morto David e sepultado, Adonias disse a Betsabé, a mãe de Salomão: “O reino não era meu, toda a gente o sabe. Pois bem: abdico do reino mas quero por mulher Abisag, a sanamita”. Isto enfure­ceu Salomão. Quem casasse com a viúva do rei podia pretender o reino. E mandou matar Adonias e praticou outros crimes de sangue, como ferir de morte Joab, partidário de Adonias. E feriu-o quando ele se refugiou no tem­plo, o que era grave pecado.

Tomou para si Abisag, a sunamita, e decerto estava enamorado dela como não estaria da filha do faraó. Escreveu o poema Cântico dos Cânticos para ela e, por ser discreto e sábio, chamou-lhe Shulamita. Mas todos sabiam que era da sunamita que se tratava. Esse foi o tempo em que o coração do rei se com­padecia com a beleza, coisa tão efémera como as ondas do mar, que logo se lev­antam e logo se perdem na vasta copa do oceano. Depois tornou-se ambicioso, ao crescer em sabedoria e porque Yavé lhe falava face a face. Passaram vinte anos desde o seu amor por Abisag, a sunamita, e ele casou com a filha do faraó e edificou para ela um palácio soberbo. Mas nada se comparava ao tempo da “humanidade assumida” que fora o do seu amor pela jovem Abisag.

Tanto David como Salomão foram famosos pelos seus provérbios e salmos, pensamentos e cânticos. Acima de toda esta obra portentosa está porém o Cântico dos Cânticos. E um poema da juventude, leve como a flor da vinha de Engadi. São sete cantos que fazem tremer o coração, e o sétimo parece o mais enigmático. Pela única vez fala de ciúmes. “São dardos, setas incendiadas. São chamas de Yavé.” Alguém, que está à parte do drama, o autor, consagra a Salomão o canto nupcial. “Sai, filhas de Sião, a ver o rei Salomão, como diadema com que o coroou sua mãe no dia dos esponsais, no dia da alegria do seu coração.” Trata-se dum canto nupcial, mas não duma obra de Salomão. E um poeta, Salomão não é um poeta. Shumalita, palavra composta de shula, jovem rapariga (como shulo é rapaz novo e atraente, depois carregado da indignidade inerente à sedução), pode não significar sequer um nome. O texto, em si, levanta problemas de estilo e de sensibili­dade. Pode não estar completo e ser um poema árabe, como árabe é o desfile romanesco dalguns personagens bíblicos, sobretudo de mulheres. Os hebreus não davam às mulheres nenhum protagonismo e estavam longe de as rela­cionar com um erotismo sem reservas. No Cântico dos Cânticos. A Sulamita busca o amado, de noite, dando voltas pelas ruas e as praças da cidade, per­guntando por ele às sentinelas. E quando o encontra é para o levar a casa de sua mãe, para o meter na alcova da que a deu à luz. Como esposa, recebe-o no leito da que foi esposa e se fez mulher sob a bandeira do amor. Para o cristão Guillaume de Saint-Thierry o amor é piedade e o diálogo dos esposos é o encantamento da alma e do Criador. Todo o poema é um retrocar de cumprimentos. Louvar consiste em dar e imputar qualidades louváveis. Há todo um exercício de reconversão do poema para chegar ao sentido eclesial do amor divino comandado pela caridade. Mas a linguagem afectiva persiste como atractivo. “E como os amantes, nos seus beijos, por meio duma suave e mútua permuta, transferem de um para o outro as suas almas, assim o espírito interiormente criado se expande no Espírito que o criou por esta mesma efusão.” É um acto de amor, mais do que uma cerimónia litúrgica.

É provável que este hino fosse dedicado aos esponsais de Salomão, mas não escrito por ele. Salomão não parece ter sido fiel aos amores da sua juven­tude nem desprendido das mulheres estrangeiras. Os Provérbios são conselhos mas não elementos da sua biografia. De facto, Salomão amou as mulheres estrangeiras até se submeter aos seus ídolos.

“Quem me dera que fosses meu irmão, amamentado aos seios da minha mãe, para que, ao encontrar-te na rua pudesse beijar-te sem que me desprezassem!” A paixão é tão ardente que tem de ser demonstrada nessa ter­nura de irmão e irmã que ilude quem a observar. Nesse engano se esconde o desejo e se pratica livremente o amor. Quem escreveu o Cântico dos Cânticos era de facto experiente em coisas da arte de amar. Como diz o Eclesiástico, “os pensamentos tortuosos afastam-nos de Deus”. Mas são doces para a língua do amor. Vamos considerar o Cântico dos Cânticos uma obra tortuosa, como compete à acção do amor.

Os homens de fé não escrevem histórias, nem relatos, mas mistérios. O Cântico, com todas as interpretações e estudos que pesam sobre ele, continua a ser um mistério. “Não há ciúme nas virtudes”, diz o prodigioso Orígenes. No Cântico há ciúme, portanto é um poema profano. “Torna, torna, Sulamite! Torna, torna, que te contemplemos!” O coro assiste, louva, olha, aplaude, alegra-se, proclama o amor dos esposos. Intervém no ritual, não interfere no drama.

Podemos suspeitar um ritmo grego na elegante coreografia do Cântico. Se a “arte de amar” é árabe, a “arte teatral” é grega. Nada disto é impossível, posto que tanto filólogos como historiadores avançaram argumentos que situ­am o Cântico como uma recolha de poemas obedecendo a um só tema e data­dos na sua última compilação da primeira metade do século IV a. C. Há aramaismo, uma palavra grega e outra persa na composição do texto. Também se pode aproximar o seu estilo às cerimónias e cânticos de bodas dos Árabes da Síria e da Palestina. Não tendo, no entanto, nada de folclórico, porque o autor é um intelectual de fina água. Trata-se dum poeta distinto que podia ter tido relação com outras obras bíblicas escritas por judeus helenizados a quem a sabedoria seduz mais do que a mulher; até porque mais depressa se atinge a sabedoria, do que se encontra uma mulher perfeita.

O Cântico dos Cânticos continuará a oferecer-nos os seus mistérios e as suas graças para as quais contribuem todos os perfumes da Arábia. Abisag de Sunan, a Sulamita, pode não ter tido mais importância do que um tijolo quente no leito do velho rei David. Mas se o poeta a encontrou, talvez já esquecida ao canto do harém, pode ter criado um poema imortal só de a imag­inar pastora da tribo de Issachar, o quinto filho de Lea. Sulamita será o feminino de Salomão e quer dizer pacífica? Nesse caso, Abisag não pertence ao poema do Cântico dos Cânticos. Com pouca idade foi levada pelos irmãos à tenda d David, onde o serviu até 975 ou cerca disso, tendo casado com Salomão para garantia do trono que não lhe era directamente destinado. Era ignorante e não pertencia decerto à família do profeta Elias. Como Salomão era um perfeito snob, como todos os sábios são, é possível que a pusesse de lado dando-lhe a tarefa de acender os fogões, as lareiras, os tripés e as lam­parinas. Salomão disse: “Foi ela que eu amei e procurei desde a minha juventude; tentei tomá-la como esposa e apaixonei-me pela beleza dela”. E a Sabedoria respondeu: “És como um jovem pavão armado de penas azuis, e eu amo-te, que Deus me perdoe”.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a O tijolo quente de Agustina

  1. EV diz:

    15 lindos livros! Já não faltam todos… A próxima caixa é que é capaz de não vir da China.

    Concordo consigo, é radical a vida de carne e ossos e morte presente como o corpo em Agustina – e isso em nada exclui o mistério, antes inclui.

    Ainda bem que trouxe o texto: não tinha tido ainda oportunidade de o ler.

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Oh, Manel, beijo-lhe as mãos só por ter trazido a Agustina a esta hora. E sim, cheio de razão, com isso da radical materialidade.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ivone, quem leva os beijos todos, e radicalmente não dispensa nenhum, é mesmo a minha muito querida autora, que tem a Sulamita numa mão e Salomão na outra. Thanks

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Toda a razão que possa ter, e que não discuto, por nem saber do que se trata, será que faz alguma fé aqui, no blog Escrever é Triste, alheio ao assunto?

  3. Helena Sacadura Cabral diz:

    A Ivone beija-te as mãos. Eu dou-te um redondo xoxo na face por me teres dado a conhecer este petisco literário de alguém que transformou a minha vida!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Oh minha linda Helena, vão daqui e por atacado um vibrante abraço e dois retumbantes beijos. A maravilhosa Agustina é o nosso Cântico dos Cânticos

  4. Beatriz Santos diz:

    Hummm…não me interessa muito se a garota era shulamita ou sunamita; se o rei escreveu ou quem; se é um ou a reunião de vários textos. O Cântico dos Cânticos é lindo. Não será místico. Mas tem uma mística irresistível. Que cresce por ser texto bíblico.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Claro que o cântico é lindo, mas é mais lindo e voltamos a lembrar-nos disso porque a Agustina nos lembra.

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