Um texto secreto e místico de João Bénard

Há 13 anos, em Novembro de 2001, convidei o João Bénard – e também a Dona Agustina, o Vasco Graça Moura, o Eduardo Lourenço, o João Miguel Fernandes Jorge e mais umas dez personalidades – para prefaciarem alguns dos Livros da Bíblia. Pedi ao João que prefaciasse o Evangelho segundo São João. Descobri que, encantado embora, a escolha lhe deixou uma ponta de decepção. Se João era, entre os discípulos, o mais amado, o Evangelho que mais o exaltava era o de Mateus, aquele onde mais Jesus era o Filho de Deus. Mas depois, decepção ultrapassada, escreveu este texto torrencial que voltei agora a ler e que três vezes me fez estremecer – porque nada nos fere e tanto nos faz estremecer como o choro dos vivos pelos que estão já mortos. Se querem encontrar-se, percam-se nesta escrita tão simples e tão cheia de mistério. 

 

joão e são joão

o evangelho místico
João Bénard da Costa

Naquele tempo, a Missa terminava (já depois do Ite, Missa Est) com a leitura do famoso prólogo do Evan­gelho segundo São João. Quando se chegava à pas­sagem Et Verbum caro factum est, o sacerdote, e todos os fiéis, punham um joelho em terra e assim per­maneciam alguns segundos.

Ignoro quando se iniciou essa tradição (post Concílio de Trento?) mas sei que ela terminou no post Concílio Vaticano II, quando a Missa deixou de ser celebrada em latim e quando todo o ritual dela foi consideravelmente modificado. Ignoro as razões que determinaram a posição final do que então se chamava «O Ulti­mo Evangelho», como ignoro as razões que levaram à sua supressão. Mas quan­do, hoje, ocasionalmente assisto a uma Missa, ao contrário do que sucedia na­quele tempo em que cumpria o preceito dominical, faz-me falta essa leitura. O Mistério da Missa aliava-se bem a essa passagem sumamente misteriosa, do mais misterioso dos textos evangélicos.

Misterioso é todo o Evangelho segundo São João. O Ultimo Evangelho. O Quarto Evangelho. O Evangelho Teológico, como começou a ser chamado logo nos inícios da era cristã. O Evangelho Místico, como preferiram chamar-lhe outros, apesar da advertência do Cardeal Newman, segundo o qual o misti­cismo começa na bruma (mist) c pode acabar no cisma. O único dos quatro livros canónicos anunciadores da Boa Nova (é esse o significado etimológico da palavra Evangelho) que radicalmente se afasta dos outros, que não é paralelo aos outros, que não reflecte nem a mesma visão nem o mesmo olhar, como os reflectem os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, por isso mesmo cha­mados sinópticos. Não sendo sinóptica, o que é, como chamar à narração joan­ina, pois que narração ela também é? É a narração do que está subjacente aos factos, mais do que a narração dos factos. Mateus, Marcos ou Lucas, para o dizer simplificadamente, são cronistas, narram o que viram e o que outros se­guidores de Cristo podiam também narrar. João, o místico, sabe que «ninguém nunca viu Deus» (Jo, I,18). Quem ele viu, quem todos os outros viram, «o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos, o que tocámos com as nos­sas mãos», como ele próprio escreveu na introdução à Primeira Epístola (I, 1), foi o Verbo da Vida (o Logos, que existia desde o principio e no princípio esta­va) quando a Vida se manifestou (I, 2), quando o Verbo se fez carne e viveu entre nós. Viu, viram, o Filho do Homem, o Cordeiro de Deus, símbolos maiores da cristologia joanina. O Evangelho de João é uma perífrase, literária, filosófica e teologicamente sublime, em torno dos estranhíssimos capítulos 15-17, esses que desafiam o sentido cronológico (aparentemente fora de ordem) e em que Jesus revela aos Seus «a glória do Filho do Homem», através do «gran­de sinal» e do «mandamento novo».

No final da Última Ceia, depois das palavras «Levantai-vos! Vamo-nos daqui!» (14,31), que também se encontram em Mateus (26,46), mas no final da agonia no horto, ninguém se levanta, ninguém parte, e Jesus inicia, como se se estivesse em outro lugar, em lugar nenhum, o discurso mais radical (se a expressão é legítima) sobre a Sua natureza e a Sua missão. No sentido mais denso, é a última palavra de Jesus. Como escreveu Romano Guardini: «quanto mais se penetra no fundo das coisas, mais se vê claramente que a última palavra foi dita por João, e que os outros evangelistas, em todas as páginas dos seus escritos, só prepararam o terreno para essa palavra.»

Que palavra é essa, vinda d’ Aquele, e sobre Aquele, que, nos textos joani­nos, como Palavra (Verbo, Logos) se definiu?

No texto apócrifo conhecido sob o nome Actos de João (obra grega do século II) Jesus diz ao apóstolo, quando lhe aparece à hora sexta do dia da cru­cificação, que há quinze palavras com que os homens podem nomear «a cruz luminosa»: Logos, Inteligência, Cristo, Porta, Caminho, Pão, Semente, Res­surreição, Filho, Pai, Espírito, Vida, Verdade, Fé e Graça.

Desses quinze termos, apenas dois (Semente e Inteligência) não são ter­mos joaninos. Logos, já o vimos, é o termo usado logo no início, quer do Evangelho, quer da Epístola canónicos, em latim traduzido como Verbo, o Verbo que era ao princípio e no princípio estava com Deus e era Deus. O Antigo Testamento conhecia o tema da Palavra de Deus, que João retoma sobretudo do Génesis e da Palavra criadora. Mas só com João a Palavra se per­sonifica, pois que só ele fala da Encarnação do Logos, dando carácter pessoal à Palavra subsistente e eterna. Só porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós, nos podemos transformar em Filhos de Deus, nascidos segunda vez (ver episódio de Nicodemos) para poder entrar no Reino de Deus. «O Vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito» (3, 8).

Porta é o tema central da parábola do Bom Pastor, a única parábola do texto joanino, ainda que não tenha nem a estrutura nem a fornia das parábo­las dos sinópticos. «Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ove­lhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achar pastagem» (10, 7-9). Para apascentar o rebanho é preciso passar por Jesus. Jesus é a única porta que conduz ao redil, sendo todos os outros acessos de ladrões e salteadores, permanecendo miste­rioso quem Jesus designa com esses duros termos, pois que fala «dos que vier­am antes de mim».

Caminho é uma metáfora análoga, mas que no texto joanino surge ape­nas na despedida após a Ceia. Jesus diz aos discípulos que eles sabem o Caminho que conduz onde Ele irá. Mas Tomé desmente-O: «Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como é que podemos saber o caminho?» E Jesus diz-Ihe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por Mim. Se Me conhecem, conhecerão também o Meu Pai». E, logo de seguida, a uma segunda objecção, vinda desta vez de Filipe, sublinha a unidade co-substancial entre o Pai e o Filho, com uma força e uma concisão que não se encontram em qualquer outro Evangelho. «Quem Me vê, vê o Pai. Como podes dizer: ‘Mostra-me o Pai’? Não crês que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim? (…)» (14, 9-10). E mais adiante repete: «Acreditem-Me! Eu estou no Pai e o Pai está em Mim» (14, 11). E por ser Caminho que Cristo é Verdade e Vida e também o Pai n’Ele e Ele no Pai. E, noutro passo, é ainda o tema do Caminho que permite a introdução da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. «E Eu pedirei ao Pai e Ele vos enviará um outro Paráclito, para que esteja para sempre convosco o Espírito da Verdade» (14,16-17). O Caminho é o caminho do Pai para o Filho e do Filho para o Pai e o cami­nho para o Filho de todos aqueles que forem guiados pelo Espírito. Nesta pas­sagem se concentram, em dimensão vertiginosa, seis das palavras nomeadas: Caminho, Filho, Pai, Espírito, Vida e Verdade.

Pão é o tema recorrente do milagre da multiplicação dos pães, na versão joanina. Se no Evangelho de João é omitida (omissão fundamental) a Comu­nhão da Ultima Ceia (o Pão transformado no Corpo do Senhor), a identifica­ção entre o Pão e Cristo vem depois do milagre, quando Ele diz: «Eu sou o pão da vida. Quem vem a Mim, não mais terá fome, quem crê em Mim não mais terá sede» (6, 35-48).

O episódio da Ressurreição de Lázaro, episódio essencialmente joanino, um dos mais belos passos do Evangelho, é o prenúncio e a metáfora fulgurante da Ressurreição do próprio Cristo. «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Todo aquele que crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá e todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá para sempre» (II, 25-26). Mas esta passagem, que a Igreja repete diariamente, à morte de cada homem, por uma daquelas fabulosas contradições humanas que igualmente tanto singularizam o Evangelho de João, encontra, pouco depois, uma vertente quase contraditória. Marta, a irmã de Lázaro, a quem Jesus dissera as palavras que citei, foi chamar a sua outra irmã, Maria, que em João se confunde com a Madalena dos outros Evangelhos. «Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe: ‘Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido’. Quando Ele a viu soluçar e viu soluçar também os judeus que a acompanhavam, Jesus estremeceu interiormente. Perturbado, perguntou: ‘Onde é que o puseram?’. E eles responderam: ‘Senhor, vem e verás’ Então Jesus começou a chorar. Diziam os Judeus: ‘Vede como Ele o amava’. Mas houve alguns que disseram: ‘Não podia Ele, que deu a vista aos cegos, fazer com que este homem não morresse?’. Estremecendo de novo interiormente, Jesus aproximou-se do túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra. Jesus disse: ‘Tirai a pedra!’. Marta disse-lhe: ‘Senhor, já cheira mal. Morreu há qua­tro dias’. ‘Não te disse’, replicou-lhe Jesus,’ que, se creres, verás a glória de Deus?’ E então retiraram a pedra» (11,32-41). Jesus orou ao Pui e depois orde­nou a Lázaro: “Levanta-te e caminha!”.

Mas porque é que Aquele, que antes dissera de Si próprio: «Eu sou a Ressurreição», «estremeceu interiormente», por duas vezes, ao ouvir os choros de Maria e ao ouvir os comentários dos judeus, quando se aproximava do túmulo? Porque é que os choros dos vivos pelo morto e a proximidade do túmulo o fizeram estremecer? E porque chorou o Senhor quando o convi­daram a ir ver o morto? «Como ele o amava!», disseram-se os judeus. E, no começo do episódio, João sublinha ainda que «Jesus amava Marta e a sua irmã e Lázaro». Qual é esse amor de Deus que O faz chorar como um homem (é a única vez que Jesus chora no Evangelho joanino) pela morte de um amigo que não pode morrer? E como é que João pôde saber que Jesus «estremeceu inte­riormente» e por duas vezes estremeceu assim?

Isso me leva à grande palavra do Evangelho de João, que não é nenhuma das quinze dos Actos e que é a essencial.

Essa palavra é a palavra Amor. O Evangelho de João é, em múltiplos sen­tidos, o Evangelho do Amor.

Mas se é o Amor que dá pleno sentido a alguns dos episódios de que João foi o exclusivo narrador (episódio de Nicodemos; episódio da Samaritana dos cinco maridos; episódio da piscina de Betzatá; episódio da mulher adúltera; cura do cego de nascença; ressurreição de Lázaro, entre tantos outros), João guarda-se de o explicitar até à noite da Última Ceia. Só nesse capítulo (cap. 13) o Amor assume o seu lugar, como se a revelação dele fosse guardada para os últimos momentos. «Antes da festa da Páscoa, Jesus, sabendo bem que tin­ha chegado a hora da passagem deste mundo para o Pai, Ele, que amara os Seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (13, 1). É a primeira vez que João, explicitamente, e não implicitamente, como até esse momento, apresenta a vida e a morte de Jesus sob o signo do Seu amor pelos Seus. Pouco depois (mas um pouco depois onde se situa o terrível episó­dio da traição de Judas, a mais obscura passagem deste Evangelho) Jesus, já sozinho com os onze (depois de Judas sair e de cair a noite) dá-lhes o «man­damento novo» (13, 34). «Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei» (13, 34). Mas já há um excluído desse amor: aquele que O traiu. Será, por isso, que na última oração dessa noite, antes de se entregar aos sacerdotes e aos fariseus, Jesus, dirigindo-se directamente ao Pai, diz: «Pai Santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste, para que sejam um só como Nós o somos. Enquanto estava com eles, guardei em Teu nome aqueles que Tu me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição, cumprindo-se desse modo a Escritura» (17, 11-12).

Antes, dissera aos onze: «Como o Pai Me amou, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no Meu amor. Se guardardes os Meus mandamentos, perma­necereis no Meu amor, assim como Eu, que guardei os mandamentos do Meu Pai, permaneci no Seu Amor. Digo-vos isto para que a Minha alegria fique em vós e para que a vossa alegria seja completa. Eis o Meu mandamento: Amai–vos uns aos outros como Eu vos amei. Não há maior amor que o de dar a vida pelos seus amigos» (15, 9-13).

Acima me referi à perplexidade que sempre suscitou a colocação deste discurso no texto, aparentemente fora de ordem. Uma das explicações pos­síveis reside no facto de Jesus só poder fazer esse discurso do amor quando «o filho da perdição» já não está junto a ele. Se Judas o ouvisse, se o discurso fos­se anterior, acaso podia Jesus pedir que eles amassem os outros como Jesus os tinha amado? Eis a grande, a terrível questão, a suspensão do amor que o próprio texto joanino suscita. Podia Jesus ter dito (17, 23). «Eu neles e Tu em Mim, para que cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu Me enviaste e que os amaste a eles como a Mim».

Mas não é só esse Amor, englobante e universal (com uma única e terrível excepção) que celebra o texto joanino. Há um outro amor mais particular, que já surgira em filigrana na ressurreição de Lázaro, no amor humano de Jesus pelo morto. É só, também, a partir da Ceia, que começam as referências a esse outro amor, com as referências «ao discípulo que o Senhor amava», referências que são uma constante do Evangelho joanino a partir desse momento. A tradição, como se sabe, tem identificado esse discípulo com o próprio João, que por esse amor — ígneo amor (não é a Águia o símbolo iconográfico de João?) — teria podido aceder a um outro conhecimento de Cristo.

Num texto luminoso, George Steiner, retomando uma antiquíssima com­paração entre as mortes de Sócrates e de Cristo, entre a Última Ceia e O Ban­quete platónico, detém-se longamente no episódio em que Jesus designa Judas como traidor e na posição de João nesse momento.

Depois de ter dito aos discípulos «quem recebe aquele que Eu enviar recebe-me a Mim e quem Me recebe a Mim recebe Aquele que Me enviou» (13,20), «Jesus, perturbado interiormente» (de novo João o sublinha) afirma: «Em verdade, em verdade vos digo, que um de vós me há-de entregar.» Os discípulos olharam-se uns aos outros sem saber de quem Ele falava. Um desses discípulos, aquele que Jesus amava, estava à mesa, reclinado no seu peito. Simão Pedro fez-lhe sinal para que Lhe perguntasse a quem se referia. Então ele, apoiando-se mais sobre o peito de Jesus, perguntou-Lhe: ‘Senhor, quem é?’. ‘É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado’, respondeu Jesus. E, molhando o bocado de pão, tomou-o e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Nesse momento, depois de comer o bocado de pão, Satanás entrou nele. Jesus disse-lhe então: ‘O que tens a fazer fá-lo depressa.’ Mas nenhum dos que estavam com Ele à mesa entendeu porque é que Ele lhe disse essas palavras. Como Judas era quem se ocupava da bolsa, vários pensaram que Jesus lhe que­ria dizer: ‘Compra o que for preciso para a festa’ ou que lhe ordenava que desse algumas moedas aos pobres. Tendo tomado o bocado de pão, Judas saiu logo. Fazia-se noite».

Pode ver-se a cena como uma comunhão ao contrário, sabendo-se, como se sabe pelos outros evangelistas, que essa foi a noite da instituição da Euca­ristia. Steiner vai ainda mais longe. Escreveu Steiner, num texto intitulado Two Meals: «Com incomparável subtileza dramática, o autor do Evangelho mistura, de certo modo, capacidades mentais e materiais. Jesus está “pertur­bado interiormente”. A ressonância é vivamente humana (etarakhte ta pneumati). Os discípulos entreolham-se, duplamente perplexos, interrogando-se sobre o sentido exacto das palavras dele e de quem ele fala. Qual traição? Quem traiu? O drama da situação, que inúmeros pintores e compositores se esforçaram por transmitir, situa-se à volta do lugar de cada um e das respecti­vas distâncias em relação a quem falou […] Pedro, manifestamente porta-voz e interrogador habitual […] está certamente demasiado afastado para inter­rogar Jesus directamente […] “Faz sinal” (o que é que exactamente isso quer dizer?) ao discípulo ‘ que Jesus amava’ (on’ egapa)».

«Num plano naturalista, o que se sucede só é inteligível se o que Jesus disse ao discípulo que amava não foi ouvido por mais ninguém. A não ser assim, porque é que Judas aceitaria o ‘pão que eu vou molhar’, o sinal que trairia o seu anátema? Igualmente, se a resposta de Jesus ao discípulo tivesse sido escutada, a brusca saída de Judas não os teria deixado tão perplexos. Num plano simbólico, psicologicamente herético, duas outras leituras são, no entanto, pos­síveis. Judas teria podido receber a oferta fatal com conhecimento de causa. Para que se cumprisse a Escritura e a vontade de Deus […] Mas uma segunda interpretação é possível, mais profana. Dos doze, Judas era aquele que mais ardentemente amava o Nazareno, embora esse amor pecasse por excesso. Ao ver o discípulo bem-amado tão manifestamente (tão escandalosamente?) prefe­rido, sucumbiu ao ciúme assassino».

A segunda hipótese pode não ser tão extravagante como parece e pode ter uma confirmação noutra passagem do Evangelho joanino: não foi precisa­mente Judas o discípulo que protestou quando Maria, em casa de Lázaro, ungiu os pés de Jesus com um perfume muito caro? (12, 1-8). Protestou, porque, homem da bolsa, era avaro, ou protestou perante outra manifestação evidente de amor físico por Jesus?

Seja como for, nessa Páscoa final, sobrepõem-se os sinais de amor e tam­bém as palavras para designar esse amor, os termos gregos agapé e philein, que já ocupavam lugar central no Banquete de Platão, em cruzamento com o ter­mo eros «definindo as cartografias complexas e parcialmente sobrepostas do amor na língua grega» em que este Evangelho foi escrito.

E a partir desse episódio que o «discípulo que o Senhor amava» emerge no Evangelho, com uma posição cada vez mais relevante. É o único que está junto à Cruz, ao pé da Virgem e das Santas Mulheres, o único que não aban­dona Cristo à hora da morte. «Vendo a Sua Mãe e, ao pé dela, o discípulo que amava, Jesus disse à Sua Mãe: “Mulher, eis o teu filho.” Depois, disse ao dis­cípulo: “Eis a tua mãe.” E a partir dessa hora, o discípulo acolheu-a com ele». Ou seja, o discípulo toma o lugar do Filho.

Depois, no episódio da Ressurreição, é a Simão Pedro «e a um outro dis­cípulo, aquele que Jesus amava» que Maria de Magdala anuncia que levaram o Senhor do túmulo. Pedro e o discípulo correram. «E o outro discípulo, mais rápido do que Pedro, distanciou-se dele e chegou em primeiro lugar ao túmu­lo. Inclinando-se, reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Simão Pedro, que o seguira, chegou por sua vez. Entrou no túmulo e viu os panos de linho […]. Então, entrou também o outro discípulo, o que chegara primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer» (20, 1-8).

Mais veloz, foi o primeiro a chegar e o primeiro «a ver e acreditar». Mas não foi o primeiro a entrar, reconhecendo, implicitamente, a proeminência de Pedro.

A última referência – a mais significativa, porque identifica o discípulo com o autor do Evangelho – vem no final, no «epílogo», que tantos comenta­dores contestam ter a mesma autoria do que o resto do texto canónico. Depois da Ressurreição, Jesus aparece aos discípulos nas margens do lago de Tiberíades. Aí confia as suas ovelhas a Pedro, depois de por três vezes lhe pergun­tar: «Simão, filho de João, amas-Me mais do que os outros?» Anuncia-lhe depois o martírio futuro e diz-lhe: «Segue-Me.» «Pedro voltou-se para trás então e viu, caminhando atrás dele, o discípulo que Jesus amava, aquele que, durante a Ceia, se tinha deitado no Seu peito, e lhe tinha perguntado: ‘Senhor, quem é que Te vai entregar?’ Vendo-o, Pedro disse a Jesus: ‘E ele, Senhor?’. E Jesus respondeu-lhe: ‘Se Me aprouver que ele fique até que Eu venha, a ti que te importa? Segue-Me’. Espalhou-se então entre os irmãos o rumor que aque­le discípulo não morreria. Mas Jesus nunca disse a Pedro: ‘Ele não morrerá’, mas disse-lhe: ‘Se Me aprouver que ele fique até que Eu venha’.

«É esse discípulo que dá testemunho destas coisas e que as escreveu. E nós sabemos bem que o seu testemunho é verdadeiro» (21, 20-24).

De novo, vacila a questão das autorias. Se é «o discípulo que o Senhor amava» que não só dá testemunho dos factos, como os escreveu, quem é o nós que conclui, garantindo a veracidade? Se o nós é São João, o «discípulo que o Senhor amava» não é São João. Mas, se o epílogo é um aditamento posterior, São João é esse discípulo amado, como sempre a tradição o viu.

E nada há de mais justo e de mais belo que seja o «discípulo que o Senhor amava» o autor do Evangelho do Amor, aquele que, como os místicos, nos assevera da impossibilidade de ver Deus, mas, noutra mística também, assume o paradoxo supremo do Amor Encarnado, do Amor Universal oferecido a todos os homens, poder ser também um Amor Preferencial.

Se todas as palavras de João são as mais sumamente misteriosas, o mistério maior é o da palavra do Amor, seja o do Novo Mandamento, seja o da relação entre o Caminho, a Verdade e a Vida e o amor humano do Senhor pelo discípulo que foi escolhido, também, para que ao mundo e aos homens anunciasse a Boa Nova.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Um texto secreto e místico de João Bénard

  1. EV diz:

    Que belo texto para os belos Livros da Bíblia que editou! Gostei tanto de ler.

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Que coisa tão bem pensada, Manel, trazer para aqui este texto do João Bénard.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Terei pensado bem quando o convidei a escrever. Juntei uns belos nomes, disso tenho a certeza.

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