Uma andorinha na madrugada

UMA ANDORINHA NA MADRUGADA

Tenho estado aqui a pensar: na verdade, preciso de um doutor em andorinhas.

A varanda do meu quarto, rasgada no telhado, tinha um ninho de andorinhas no beiral, claro. Mas não me ligavam nenhuma e isso parecia-me uma andorinhice natural: onde vivia, então, era muito verde e cheio de pássaros em correctíssima biodiversidade: pegas azuis, poupas que em bebés tinham poupinha, o maluco do pica-pau verde bem se ouvia mas lá ver-se não via, garças, pernilongos, e sei lá que fartura de patos e variedade de gaivotas. E a cotovia. E mais. Agora, aqui, entre a casa de onde venho e a casa para onde vou, portanto, nesta casa intermezzo, não há verde em volta nem mar ao fundo.

A andorinha voltou esta noite. Veio mais cedo, eram duas e dezoito quando o espanto me passou e consegui ver as horas no telemóvel. E não se ficou pela varanda. Não. Veio logo para a sala onde estou a trabalhar, quero dizer, a fitar a folha branca, quero dizer, a ser fintada pelo branco da folha.

E vá de voar do tecto ao chão e eu ai que não me acorde o cão, se lhe dá o instinto caçador, Deus, Nosso Senhor, entre o cão e a andorinha que desgraça a minha! Não acordou.

Fiquei ali pasmada, sentada no sofá, a folha que se lixe, posso lá perder isto de me entrar o National Geographic pela noite adentro? Voou quanto quis e lhe apeteceu. Escancarei as janelas todas pois não faço prisioneiros que não venham de livre vontade, e ela zás, foi mais para dentro, lá para dentro. Depois voltou. Quando se fartou de aparecer, desapareceu-me. Será que vive na chaminé da lareira? Já espreitei com os olhos e os ouvidos: só ouço preto e não vejo um ai.

Não gritou, nem me assustou. Veio sem medo. E eu gostei. Mas veio sozinha. Isso não é vida de andorinha, pois não? E se se perdeu das outras asas do seu bando pelo caminho para outras paragens? E for residente onde está o resto da sua gente?

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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8 respostas a Uma andorinha na madrugada

  1. A. diz:

    A lenda das andorinhas

    “Conta a lenda que num campo de Nazaré cheio de sol, o Menino Jesus brincava com as suas mãozinhas amassando barro e fazendo com ele passarinhos de asas abertas que colocava no chão alegremente. Um homem de mau génio passou junto dele e tentou esmagá-los com os pés.
    O Menino Jesus, muito aflito, bateu as mãos e os passarinhos de barro voaram para muito longe. E assim nasceram as andorinhas que, com a beleza das suas asas cinzentas, vieram poisar sobre o beiral da casa onde vivia o Menino Jesus. Do barro de que foram feitas, as andorinhas construíram com amor o seu primeiro ninho.
    Conta ainda a lenda que, quando Jesus foi crucificado, as andorinhas o rodearam e com os seus bicos rosados lhe tiraram da coroa os espinhos que tanto o magoavam.
    Perante tão grande dor, as suas asas cobriram-se de luto e nunca mais perderam a cor negra.”

    Há quem diga que os lares que elas escolhem para ficar são abençoados por Deus. Que assim seja!

    Um abraço! 🙂

  2. Beatriz Santos diz:

    Aguardo os próximos episódios:)

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Num certo sentido e a bem dizer,a Eugénia tem a Primavera escondida em casa, e só para si, há uns bons meses!

  4. EV diz:

    Essa é que é a verdade: Primavera à la carte!

  5. Talvez se tenha apaixonado, como a Andorinha do “Príncipe Feliz” do Oscar Wilde, e tenha resolvido adiar a partida. Resta saber por quem ou pelo quê. Eu se fosse essa andorinha, estaria certamente enamorada das letras da Eugénia.

    • EV diz:

      O tio Wilde é um dos homens da minha vida. Ainda tenho uma edição de capa mole com a obra completa dele que comprei aos 19 anos. Páginas de muito mau papel, áspero ao toque, mas que me deram muita alegria – ainda que o Príncipe Feliz seja triste.

      Muito obrigada pelas bondades.

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