Uma noite no sótão: com a lua vaga de Mizoguchi

Lembro-me como se fosse anteontem. Faz hoje 26 anos, era isto o que eu escrevia no suplemento cultural (ou de entretenimento?) de “O Semanário”. A Cinemateca exibia então um ciclo de Mizoguchi e eu tinha cinco empregos, um Renault Clio, uma casa alugada com quintal, umas tão amenas saudades do futuro como hoje tenho do passado. 

contos da lua vaga

KENJI MIZOGUCHI a morte imaginável

Em 1952, na Europa, não era ilustre. Era só desconhecido. Nesse ano, veio participar no Festival de Veneza. Trouxe consigo a imagem votiva de um santo budista do século XIII. Rezou para ganhar. E jurou que, se não ganhasse, não voltaria ao Japão. No fim do Festival, Kenji Mizoguchi voltou ao Japão. O Ocidente descobrira o mais japonês dos cineastas e a história do cinema teve que desocupar um dos seu tronos, para nele sentar a sua obra.

Quem vá ver os seus filmes – à Cinemateca, claro – terá uma primeira surpresa: a familiaridade daquele universo. O amor louco, o infortúnio da virtude, a força do destino, a ávida circulação do dinheiro, os conflitos de classes, evocam a melhor tradição ocidental, do mito de Tristão e Isolda aos melodramas, de Sade a Maupassant. Mizoguchi pode ser um amor à primeira vista.

Passada essa fresca gota de familiaridade, os seus filmes permanecem violentamente estranhos. Começa a sentir-se que a dramática contradição entre a fluidez da câmara, o soberbo pictorialismo da sua mise-en-scène e o drástico sistema de interdições e hierarquias que se crispa sobre os personagens não é do nosso e deste mundo. Usando classificações muito ocidentais, dir-se-ia que o dramatismo de Mizoguchi resulta do confronto constante entre formalismo e humanismo – muito embora, e provavelmente, só o vício dos nossos olhos ocidentais queira e se obrigue a distinguir onde o formalismo começa e o humanismo acaba. E vice-versa. Quer dizer, Mizoguchi, além de amor à primeira vista, é um misterioso diamante que demora uma vida a polir. Num primeiro movimento identificamo-nos com a paixão e o sofrimento das suas personagens, para a seguir nos sentirmos cruelmente rejeitados pela implacável estranheza dos comportamentos e das situações.

amantescrucificados

Por exemplo, parecer-nos-á termos compreendido a sordidez e o aviltamento das relações sociais, em A Vida de ‘O’Haru, que desencadeiam a miséria moral e física da heroína (aproximáveis das de Os Infortúnios da Virtude, de Sade), assim como acreditamos compreender o amor inflamado da heroína de Os Amantes Crucificados, aparentemente o caso mais óbvio da plena afirmação redentora do amor contra as barreiras sociais que separam os amantes (mais fundas e terríveis do que as do Amor de Perdição, para fazermos o jogo de espelhos com o nosso mundo). E julgamos ainda compreender a poesia de bruma e sofrimento que perpassa em toda a obra de Mizoguchi, desde os já cita­dos filmes até aos Contos da Lua Vaga, A Imperatriz Yang-Kwei-Fei e A Rua da Vergonha.

Mas essa contemplação se­gura e poética esbarra no «espesso muro psicológico» de que fala um dos comenta­dores japoneses de Mizogu­chi. E à nossa compreensão ocidental parece vedada a implacável separação das águas que existe entre os ho­mens fortes e duros, nada in­clinados ao amor (os tachi-yak) e os homens doces, qua­se efeminados, que sucumbem à sedução feminina (os ninaime) — Os Contos da Lua Vaga é porventura o me­lhor exemplo dessa dicoto­mia — bem como nos permanece inacessível o êxtase que as heroínas de Mizoguchi reti­ram do seu sofrimento – houve quem o quisesse expli­car como um sinal de ódio de Mizoguchi às mulheres, misoginia justi­ficada por episódios autobiográficos. E também nunca compreenderemos a fluida passagem da vida ao sonho, exemplo de um onirismo que roça a loucura e a alucina­ção e que as personagens de Mizoguchi vi­vem sem temor e sem tremor, como se apenas na mistura de vida e sonho, a reali­dade afirmasse a sua unida­de soberana.

Os filmes de Mizoguchi são histórias de amor. São talvez melodramas em que a obses­são realista do cineasta não se detém perante a mais de­sembestada e pungente crueldade. E nisso são ferocíssimas histórias de amor e morte. A sordidez que se instila nos filmes de Mizoguchi empurra para a fatalidade do desenlace, a morte, mas ajuda também a transcender esse destino terrível. E tal como acontece aos infelizes apaixonados de Os Amantes Crucificados, que longamente preparam o suicídio no meio do lago, aos espectadores de Mizoguchi acontecerá também perce­ber que «morrer é inimaginá­vel», a menos que a morte seja a forma misteriosa e imemorial de afirmar a for­midável soberania da vida. Só assim se entende o sorriso estremecido com que os amantes caminham para a crucificação no filme que a essa cena rouba o título; só assim se entende a alegria sem peso do herói de Os Contos da Lua Vaga na cena final, quando o herói fica só com o espectro da amada; como só assim se entende a alucinante aceitação da morte espelhada na esvoaçante capa rubra que Yang abandona antes de ser exe­cutada, no final da Impera­triz. Ou será que não se en­tende? Ou será que é nesse turbilhão desordenado e inexplicável que Mizoguchi colhe  e espalha o seu perfume, essa indefinível fragrância japonesa?

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Uma noite no sótão: com a lua vaga de Mizoguchi

  1. Beatriz Santos diz:

    Trouxe-me vontade de conhecer este Senhor e os seus filmes. Obrigada

  2. EV diz:

    Este texto está fresquinho… quais 26 anos?!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fico contente por achar que o texto se aguenta, hoje. O Semanário libertou-me do espartilho estruturalista, culturalista e hermeticamente elitista que trazia da universidade e de mal digeridas leituras. Mas lá que o texto tem 26 aninhos, isso tem.

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