Abrir a mala

suitcase_ericweiner_617

(para satisfazer a curiosidade da Eugénia)

Quando era criança, passeava-me pela casa com uma pequena mala de viagem (o que lhe terá acontecido? para onde vão as coisas que perdemos quando crescemos?). A acreditar na minha memória (ou na minha imaginação?) era parecida com esta que aqui coloquei para fazer companhia às palavras.  Arrastando a pesada mala comigo, entrava e saía das divisões como quem visita ou abandona um continente, sem exibir passaporte ou mudar de língua. O que ela guardava, apenas eu sabia: um diário com uma minúscula chave, muitos livros de aventuras, mistério e histórias, um coelho bípede, uma lata de creme Nivea, cigarros de chocolate, canetas de feltro & outras coisas mais. Tudo essencial e necessário (apesar de nunca ter tido uma Necessaire, como as minhas primas) para a minha vida. Deve vir daí a mania de levar tudo e mais alguma coisa dentro de uma mala, agora para as ruas do mundo. Com algumas pequenas diferenças. O diário com chave deu lugar a um, dois, por vezes três cadernos de formatos diferentes que acabam por envelhecer dentro da mala, de tanto embaterem nos outros objectos, onde tomo nota de ideias que aparecem como visões, frases que oiço aqui e ali, alinhavo posts imaginários e faço contas, sobretudo de somar ou de multiplicar. Em vez de livros de aventuras, trago uns óculos para ler ao perto e outros, de sol, para me esconder ao longe. O coelho bípede foi substituído por latas de comida para gato Gourmet (não vá algum dos meus protegidos da rua cruzar-se no meu caminho e apanhar-me desprevenida) e os cigarros de chocolate cederam o seu lugar à One Touch Ultra, a minha inseparável máquina de medir o açúcar. Como as máquinas falham, há outras duas, mais pequenas, que juntas formariam uma espécie de charuto espalmado, como back-up.  E como o açúcar por vezes baixa, há uma garrafa de sumo de frutos vermelhos light, uma maçã (de preferência bravo de esmolfe) e uma bolacha de chocolate Milka ou Leibniz (não confundir com o também alemão filósofo, pois esse leva mais uma letra no nome), para as descidas de açúcar mais radicais. Há um pacote de lenços de papel que por mais que se gaste tem lugar cativo e o creme Nivea branco cor de neve transformou-se numa caixa de blush, que me faz corar instantaneamente em momentos de palidez, sem que para isso a adrenalina dispare. As canetas de feltro, essas mantiveram-se. Continuam a ser pretas, roxas e azuis turquesa, como se ainda fossem as mesmas com que escrevi os primeiros textos, num tempo em que os computadores eram ficção científica. Apesar de serem pelo menos 4 ou 5, costumo desencontrar-me de todas quando quero tomar nota de um número de telemóvel ou de uma morada. Nessas ocasiões, os meus dedos cegos  encontram no fundo da mala, junto ao iphone ou à carteira, objectos inúteis como uma lanterna sem pilha ou uma mola de roupa de madeira. Quer acreditem quer não, tudo isto somado ao peso da própria mala dá mais de 2350 gramas. Para isso contribui de forma decisiva o molho de chaves para portas terrenas, tantas vezes comparado ao de São Pedro, em vez da minúscula chave que fechava as palavras e guardava os silêncios no meu querido diário. Quando vou à veterinária, aproveito para pesar a minha mala como se fosse um animal doméstico de pequeno porte e posso garantir-vos: ela tem uma tendência hereditária para engordar e nem as pastilhas Rennie que carrega numa bolsa secreta a vão ajudar. Se não a colocar rapidamente de dieta, um destes dias vou mesmo para a rua com uma pequena mala de viagem na mão.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Abrir a mala

  1. A. diz:

    Maria João, que bela mala carregava quando criança! 🙂
    Mas levar latas de comida para gato? Sensacional.
    Ganhou minha admiração.
    Gostei muito! 😀

    Uma abraço!

  2. EV diz:

    Gostei muito de espreitar as suas duas malas, Maria João. E das correspondências entre elas.

  3. Que grande texto, Maria João, e o que eu gostei da mala de viagem de sala em sala. E com que então o chocolate quase filósofo? Em encontrando uns bombons wittgensteinianos, hei-de arranjar maneira de os fazer chegar à tua mala. As mónadas, não sei se te fazem bem.

  4. nanovp diz:

    Maria João isso não é uma mala, é um Universo, com memória e tudo! Bela a ideia de viajar em casa como se continente fosse…

  5. Filipe João diz:

    🙂

Os comentários estão fechados.