CÂMARAS E PSICOPATAS

"Em Parte Incerta", de David Fincher

“Em Parte Incerta”, de David Fincher

David Fincher é um artista. Como todos os artistas, de Durer a Antonioni, tem as suas obsessões, e elas agarram-se à obra como cilícios num penitente. A ausência de empatia é uma das pontas do cilício – existem monstros e psicopatas no centro de quase todos os seus filmes. O acto de ver, e de ser visto, é também crucial ao universo de Fincher. Há quanto baste de câmaras e psicopatia neste “Em Parte Incerta”: Nick (Ben Affleck) e Amy (Rosamund Pike, sublime), ambos a viver em Nova Iorque, ambos aspirantes a escritores, conhecem-se numa festa; a inteligência fulminante dela atrai o charme ocasional dele, casam-se, vivem o mais perfeito idílio, mudam-se para uma cidadezinha do Missouri, até que a parede cor de rosa começa a estalar. Na manhã do 5º aniversário de casamento, Amy desaparece. Será que Nick a matou?
Entre as obsessões de Fincher, a mais importante é um existencialismo fúnebre. O seu planeta é nocturno, extirpado de sentimentos, com negros tão espessos que quase conseguimos penetrá-los. Os maiores críticos acusam-no de dependência dos géneros clássicos. Ora, Fincher transcende aqui os géneros, num filme magnífico que é simultaneamente um thriller, um melodrama e uma sátira, ácida como as de Billy Wilder (quem diria?). Mas “Em Parte Incerta” é também um retrato da América, a do transe mediático e da meridiana hipocrisia, culminando no apocalipse moral sugerido ao longo de 20 anos, de “Seven” a “Fight Club”, tão intransigente como o silêncio urbano no desfecho de “O Eclipse”.

No epílogo de “Seven”, o detective Somerset (Morgan Freeman) cita Hemingway: “O mundo é um bom lugar, pelo qual vale a pena lutarmos; concordo com a segunda parte”. No coração de Nick e Amy, esse mundo já não existe, e “Em Parte Incerta” é o filme mais aterrador de David Fincher.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a CÂMARAS E PSICOPATAS

  1. Se eu já estava com vontade de ir ver o filme, agora redobrei. Isto é que são maneiras de abrir o apetite!

  2. Fartei-me de gostar deste Fincher, até ao último ao último acto. O último acto é que é o diabo, tive saudades do epílogo do Seven

  3. Vai,Teresa, e obrigado pelo comentário a este amuse-bouche. É engraçado, Manel, eu acho que o último acto é que lhe confere o tom satírico e a verve trágica. Mas temos de discutir isso ao vivo.

    • Pedro, tenho um princípio: quem gosta mais tem sempre razão. Mas estou em boa companhia, acabei agora mesmo de ler o David Thomson e ele diz que tudo o que se passa a partir do 75º minuto é fatal para o filme. Eu atribuo as culpas ao romance de origem…

  4. É um belo princípio, doutor. Mas, para mim, ao 75º minuto, ainda nem sequer estamos a meio do 2º acto (a coisa tem duas horas e meia e o último acto, na minha opinião, arranca quando ela decide regressar e não dura mais do que 20 minutos). Hoje à noite já vou ler o que diz o Thomson. Comprei esta semana e comecei a ler o “The Big Screen”. Já leste? Ab

  5. anaritaseabra diz:

    Tão aterrador, que saí da sala de cinema mal disposta!

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Com um texto destes não temos hipóteses de não querer ir ver….

  7. riVta diz:

    depois de ler o teu post corro para dentro da sala escura … ouves-me aos gritos?

  8. Ora bolas, quem me mandou a mim andar a escrever gracinhas acerca das cheias, como se fosse uma grande novidade, em lugar de vir aqui ler este post a tempo nem que fosse da ultima sessão!

  9. Também não era caso para tanto, Ana Rita. Foi do sangue na guelra da Rosamund ou do gládio gelado que trespassa o coração dela?
    Já foste, Bernardo? Hope you liked it.
    Estou a ouvir-te agora, Rita. Bu!
    Cara Teresa, espero que essa sessão não mais seja adiada.

Os comentários estão fechados.