Chinchila!

"Frank", de Lenny Abrahamson

“Frank”, de Lenny Abrahamson

“Infância miserável, doença mental…onde é que eu encontro esse tipo de inspiração?”, pergunta Jon Burroughs (Domhnall Gleeson), o coprotagonista desta bizarra e mais do que aconselhável tripe cinematográfica.

Jon é um zé-ninguém de uma vila britânica junto ao mar onde o suicídio parece natural. Está convencido de que tem talento para a música, e passa os dias a criar hits espontâneos na sua cabeça. O tédio termina quando o teclista de uma banda franco-americana – os indescritíveis Soronprfbs – quase se afoga após uma discussão. Jon é recrutado para o concerto da noite, mas o grupo é liderado por uma figura com algo mais do que canções medíocres a nublarem-lhe o cérebro: Frank (Michael Fassbender, outra vez notável) usa uma cabeça gigante, feita de papel machê, e nunca a retira, nem no duche. Jon irá perseguir o seu sonho quando acompanha a banda até um retiro artístico nos confins do campo irlandês, onde passará os onze meses seguintes com uma instrumentista que o odeia (Maggie Gyllenhaal), um ex-teclista com um fetiche sexual por manequins de montra, uma baterista e um guitarrista que não falam uma palavra de inglês e o errático, carinhoso, perfeccionista e verdadeiramente louco Frank (baseado na “persona” artística do comediante Chris Sievey), espécie de cruzamento genético entre Lou Reed e o pássaro Poupas da “Rua Sésamo”.

“Frank” é a 5ª longa-metragem do irlandês Lenny Abrahamson e, após o prometedor “What Richard Did” (2012), revela um talento fresco e pouco convencional, de humor tão negro como o funeral de um cego. O filme viaja na autoirrisão, troça da fama e da cena “indie”, desequilibra-se na última meia-hora (a “secção irlandesa” é mais sólida do que o regresso à América) mas celebra uma alucinada musicalidade que poderia ser fruto da passagem nocturna dos Pink Floyd (fase Syd Barrett) e dos Velvet Underground por um reformatório.

Na cabeça gigante de Frank deveria estar escrito: “Filme de Culto”.

(publicado na revista Sábado)

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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3 respostas a Chinchila!

  1. riVta diz:

    a ver então!

  2. Sem dúvida, amiga Rita. Para ficar de cara à banda.

  3. nanovp diz:

    Pois já tinha ouvido “zuns-zuns”, pelos vistos confirmam-se….a cabeça é extraordinária….

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