Era uma vez um génio do perfume que saiu do armário

Era uma vez um génio do perfume que saiu do armário. Não, não venho falar-vos do Jean-Baptiste Grenouille, o génio do olfacto que Patrick Suskind fez nascer numa banca de peixe. Nem sequer venho maçar-vos com histórias de perfumistas ou de buscas por essências perfeitas. O génio, aqui, é de outras artes. Nasceu Mike Hadreas, de família grega, numa cidade, Seattle, que explodiu musicalmente nos anos 90 com o movimento grunge e, em especial, com os emblemáticos Nirvana de Kurt Cobain e Pearl Jam de Eddie Vedder. Consta que, por essas alturas, Mike era o único gay assumido do liceu e, por isso mesmo, levava na tromba a toda a hora dos classmates. Parece que o rapaz, rejeitado até à medula, não teve outra alternativa senão a de, depois de frequentar cursos de pintura em NY, se enfiar no quarto e desatar a fazer música. Dizem que, nos primeiros anos de dedicação à causa musical – o que é o mesmo do que dizer nos dois primeiros álbuns publicados –, quase não saiu de lá (do quarto), tanta era a vergonha de ir para além do sussurro, de enfrentar uma plateia, de ser confrontado uma vez mais com a crítica e a rejeição. Mas, ao terceiro álbum, orgulhosamente intitulado Too Bright, o solitário Mike resolveu pedir ajuda ao mago Adrian Utley (um dos responsáveis por um dos melhores sons que se fez ouvir nos referidos anos 90, o dos Portishead) e o resultado está à vista: o rapaz escancarou as portas do armário e fez-se ao mundo, substituindo o cochicho pelo grito raivoso, a simplicidade da música caseira pela sofisticação dos truques de estúdio e o aplauso envergonhado de algumas dezenas ou centenas de curiosos (muitos atraídos sobretudo pela temática gay das suas canções) pela aclamação mundial. Too Bright é, até ver, na modesta mas insuspeita opinião deste que vos escreve, o melhor álbum feito em 2014. Para completar a história, resta dizer que, na música, Mike se apresenta ao mundo como Perfume Genius. E ainda que também dá nas vistas nos vídeos que ilustram as suas magníficas e poderosas composições musicais, cujo visionamento não se aconselha – fica aqui o aviso, depois não se queixem – a quem sofre do coração, de pânico homossexual ou de conservadorismo agudo.

 

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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6 respostas a Era uma vez um génio do perfume que saiu do armário

  1. Beatriz Santos diz:

    É preciso entrar no armário para poder sair dele; e quem sabe se a permanência também ajudou na expressão musical…a vida tem seus ínvios caminhos, não são aparato divino exclusivo:).

    terei atenção que o coração pode-se-me partir, é domingo, está quase tudo fechado e não tenho cola à mão. Porém, acredite, escândalo é ter de roubar para comer e conviver com os verdadeiros e impunes ladrões a pavonearem-se nos media. Ora nisso, estamos conversados.
    de toda a maneira, obrigada pelo aviso. a esta hora já estaria trnasformada em estátua de sal….

    • Diogo Leote diz:

      Cara Beatriz, leio-a (com muito agrado aliás) e fico na dúvida, pelo temor que revelou em relação à transformação em estátua de sal, se, de facto, se atreveu a espreitar os vídeos…

  2. riVta diz:

    espero que nunca deixes de trazer as tuas delícias

    • Diogo Leote diz:

      Rita, enquanto estiveres aí com paciência para me aturares, as delícias não hão-de faltar.

  3. nanovp diz:

    Bela saída da casca… tens razão : o som é poderoso!

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