O Escafandro e a Borboleta*

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Imóvel, o corpo. Dois olhos que olham. A vida através da lente da câmara de filmar. Ou o que parece restar da Vida. O corpo imóvel, morto, flácido e sem força.

A vida no fundo de um mar espesso.

um fundo de mar espesso

um fundo de mar espesso

Dois olhos que vêem tudo como se fosse pela primeira vez. Dois olhos que não querem deixar de ver, agora que todo o movimento desapareceu, morto o corpo. Apenas  olhos que vêem, a cabeça que pensa.

As mulheres bonitas, em “close up”. Quem tanto as amou agora só pode olhar, imaginar, sem nada fazer. Lembrar a paixão no corpo, agora morto.

mulheres bonitas

mulheres bonitas

O passado em imagens amareladas, os rostos e a vida, toda a vida, agarrados à lente da câmara, como quem diz, os rostos vistos pelos olhos de um corpo que se recusa a viver.

Porque de um momento para o outro tudo muda. Os prédios entortam-se, as ruas curvam-se e desaparecem, as nuvens desarrumam-se, os olhos tremem.

Tudo morre menos a imaginação e a memória. Para essas existirem, só precisamos de ter vivido.

Pode-se viver só a pensar com os olhos.

 

*texto inspirado no filme de ‎Julian Schnabel,  a quem também roubei o título.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a O Escafandro e a Borboleta*

  1. Que grande frase, Bernardo: viver a pensar com os olhos.
    E que imagens tão bonitas aqui evocou. Gostei muito.

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