O lugar óbvio das coisas

 

Cada coisa procura a sua semelhante. Aliás, a qualidade camaleónica das coisas está bem documentada no dia a dia do nosso descontentamento. Porque é que nunca se encontra o que está debaixo do nariz?

A história do ladrão de jóias serve para ilustrar. O roubo foi num museu londrino, o furtado colar de pedras preciosas era o mais valioso da colecção em exibição. O ladrão foi preso, mas nunca confessou o lugar onde escondera o colar. A foto foi divulgada, as buscas foram intensas, até o museu foi revistado de uma ponta à outra. E nada.

Só descobriu quem não andava à procura.

Uma criança olhou para o casal de monarcas de cera na entrada da exposição e, à vista de todos, o pescoço da rainha refulgia envolto em colares vistosos. O brilho dos rubi vermelho saltou aos olhos do menino: olha, aquele parece mesmo o colar roubado.

Desta vez, nem uma criança descobre o mistério. Está à minha frente, desesperada:

– Sabes onde está a minha moto cor-de-laranja?

Procurámos tudo. Debaixo dos chapéus, atrás dos livros, entre as almofadas, no canto das pinturas, na casa das histórias. Até o improvável quartinho dos brinquedos foi revirado de alto a baixo. Nada.

Só muito mais tarde fomos dar com a moto. Estava, como era evidente, no estacionamento cor-de-laranja.

 

foto moto estacionamento laranja

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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12 respostas a O lugar óbvio das coisas

  1. EV diz:

    É a lógica da laranja!

  2. Maria João Freitas diz:

    Teresa, se as coisas se organizassem por cores, seguindo como regra o livro de Pantones, será que o nosso quotidiano seria mais fácil ou mais difícil?

    • João, que ideia tão gira! ter um guia colorido da vida só pode ser divertido. Para começar, era capaz de dar um conto infantil divertido. Rimas de coisas às cores.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    As clementinas e as tangerinas deviam é ser azuis.

    • Manel, mudar as cores das tangerinas é capaz de ser questão de negociar.
      E como desconfio que tem uma relação privilegiada com o Senhor lá em Cima, é só começar a propor. O problema era depois ter de alterar todos os manuais escolares e os rótulos das latas de tintas…

  4. nanovp diz:

    Perder coisas tem mais o tom “azul”… Feels Blue….

  5. Beatriz Santos diz:

    É que olhamos e não é nada evidente que seja uma mota entre as tangerinas. E nós sabemos que ela está lá. Imagine-se o que padece quem não sabe.

    • Pois imagine, Beatriz, as vezes que passámos ao lado da moto a olhar sem ver.
      É como quando andamos à procura dos óculos que estão na ponta do nariz.
      As coisas que não querem ser descobertas tornam-se camaleoes. Tão bem integradas no seu ambiente que ficam invisíveis ( pois não poderá pensar-se que nós é que somos distraídos…que ideia mais absurda!)

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Gostava de gostar mas não consigo. Que bem estacionada ficou a moto!

    • Céu, é o estacionamento perfeito. Sem fiscais da Emel nem reboques nem nada.

      Quanto aos likes, eu também não vou lá. Aqui não é só clicar como no FB.
      Só os iluminados da informática conseguem, acho 🙂

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