Um bando de frustrados sexuais

Partie de plaisir

Paul e a primeira mulher, Danielle, em “Une Partie de Plaisir”, de Claude Chabrol

Jorge de Sena dizia que, por vezes, os franceses nos tiram o ar todo com um sublime soco no estômago. Falava de literatura e poderia muito bem estar a falar da beleza celerada de um verso de Rimbaud. Pego-lhe nas palavras para começar a falar da beleza celerada de Paul Gégauff, poeta dos argumentos dos filmes da Nouvelle Vague que construíram o torpe imaginário da minha geração.

Estão a ver o Belmondo de “A Bout de Souffle”? É ele, Paul Gégauff, copiado, cuspidinho. Quanta inquietação da Nouvelle Vague não é inquietação deste Gégauff, deste François Villon dos anos 50 e 60, canalha e libertino, amante de noites a arder em álcool puro e carne fresca?

A história da Nouvelle Vague é a história de amor de Godard, Rohmer, Chabrol, Truffaut e Rivette. Nessa história, Gégauff é a espada de ódio que corta a direito, anarquista de direita, para não dizer facho, onde os outros se andavam a roçar pelas coxas mal abertas da esquerda. Se fosse o próprio Gégauff a dizê-lo, teria de escrever aqui, o que não farei, que ele se estava a cagar para os “Cahiers du Cinèma” e para a revolução desse bando de “frustrados sexuais”. A Rohmer, a quem inspirou o Jêrome de “Le Genou de Claire” e o Henri de “Pauline à la Plage”, Gégauff tratava-o por “le grand Momo” e dizia que ele era um asceta fechado num quarto de criada, sonhando ter ao colo umas meninas a que pudesse dizer coisinhas lúbricas. Chamava a Godard o “Dostoievski de Lausana”. Insultava Truffaut: “Tu não existes, pá, tu não existes!

Entendeu-se com Chabrol “o sonolento”. Escreveu-lhe os argumentos provocadores e insolentes de “Bonnes Femmes” e de “Les Godelureaux”. Na rodagem de “Les Godeleraux” foge, para se casar com a primeira mulher que por sua vez fugirá com um produtor. Faz tudo para que ela volte e chapéu. Chabrol contará a história em “Une Partie de Plaisir”, com os dois ex-amantes a fazer os próprios papéis. Conhece, depois, Coco, mulata linda, pai da ilha de Reunião e mãe da Noruega. Ela bem avisou: “Tu és demasiado velho, eu sou demasiado nova.” Os ponteiros deles não batiam certo, um tinha-os na meia-noite, o outro nas seis da tarde. No Natal de 1983, com exasperada e sacana ironia Gégauff disse-lhe: “Mata-me se quiseres, mas pára de me foder o juízo.” Coco, com três facadas, arrumou o assunto e arrumou esta crónica.

Publicado no Expresso, sábado dia 18 de Outubro

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Um bando de frustrados sexuais

  1. Pudera! a frustração sexual era inevitável, devido ao crescente intimidatório da parte feminina:

  2. Beatriz Santos diz:

    Dessa gente toda só tenho paixão por Truffaut. E não acredito que ele não existisse. Existe ainda, o senhor Truffaut. Será imortal?

  3. EV diz:

    O tio Gégauff é exemplar: é preciso ter cuidado com o que se pede, não vá Deus, o diabo, perdão, Coco, estar a ouvir.

  4. Boa, boa. Boa crónica. E eu, que tenho a mania que sei tudo de duas ou três coisas, não conhecia este comilão Gégauff.

  5. nanovp diz:

    O que se esconde por detrás Manuel pode ser tão interessante como o que se revela…não conhecia mas gostei muito de ler…e prender…logo eu que gostei muito do “genou” e da “Pauline”…

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