Visão, tenha duas: o primeiro táxi de Manhattan

Foi um toca e foge. Era a primeira vez, 1986. O avião bateu no JFK e eu, em trânsito, operações alfandegárias feitas, vim ver a rua, cinco minutos de cá fora, antes de entrar noutro portão e apanhar o avião para Los Angeles.

Encostados ao infinito passeio, estavam ali, como a flor de Coleridge, num amarelo de Van Gogh, os táxis de Nova Iorque. Sei bem que, se fechasse os olhos e acordasse, acordasse eu onde acordasse, sempre encontraria na mão essa reminiscente flor amarela com que acorda quem já viu, de Nova Iorque, o inocente, insolente e impassível yellow cab. Olhei – ainda era esse tempo – e vi que havia um ocioso Mitchum, um nervoso De Niro, encostados às portas dos carros, à espera.

Três meses depois, passados e repassados alguns indiferentes táxis de L.A., voltei. Estava Dezembro com um pé na chuva e outro na neve e faltariam três renas para o Natal, se assim se pode dizer.

Havia no ar uma solidariedade de cães e gatos entre os humanos. O taxista arranjou maneira de quatro estranhos partilharem um táxi. Lembro-me que, banco de trás, entrei em Nova Iorque com a fria manta das sete e meia da manhã aos ombros, a coxa direita encostada à esquerda de uma morena, a esquerda à direita de uma loira – há vantagens em ser-se portátil e encaixarmo-nos bem na doçura juvenil de um táxi que rola e entra em Manhattan.

Não se entra em nenhuma cidade como se entra, pela primeira vez, em Nova Iorque: fundem-se a grandeza e o pormenor, a sofisticação e o trivial, o arranha-céus e o esgoto, o céu e o fumo do chão. Em Nova Iorque temos a certeza de que a reincarnação é a única explicação racional para a vida humana. É a primeira vez e reconhecemos cada cara negra, branca, porto-riquenha, eslava ou chinesa que passa. Já os vimos, sempre os vimos, mesmo sem sabermos onde os vimos. Hi! Hello! Honey! Todas as ruas por onde passamos nos fazem soltar um ah! de espanto, o ah! de espanto de quem, nostálgico, se admira e grita com o regresso às ruas da sua infância. Já vivemos ali, sem sabermos que vida ali vivemos, sem sabermos que outra vida possamos ter vivido que não seja essa vida que lembramos, cruzando-a de táxi, sem sabermos como a podemos algum dia ter esquecido.

Rola, rola, rola o yellow cab e, quando é a primeira vez, o táxi leva-nos para Nova Iorque como quem nos leva para Brigadoon. A cidade que acorda, os outros carros, as bicicletas, as mulheres que correm, os homens agitados, tudo isso é uma invenção, uma liberté, com que um daimon cartesiano nos encanta e engana. Sabemos bem que depois do táxi passar, aquelas ruas, as pessoas, os gigantescos edifícios, hão-de desaparecer como uma conjectura de Berkeley. É o nosso olhar, o nosso olhar que espreita pelas janelas molhadas de um táxi (há poucas coisas molhadas de que se goste tanto como das molhadas janelas de um táxi), é o nosso olhar, dizia, que inventa, cerebral, Nova Iorque.

O preguiçoso Mitchum era o meu taxi driver. Lá vou eu, dentro do girassol de quatro rodas. No bolso, para sempre, a chave do primeiro hotel de que já me esqueci do nome, perto do Grammercy Park – isso lembro-me. Ainda tenho essa chave no bolso e não sei se é a chave de um hotel rasca, se é a flor que o utópico Coleridge teria colhido se um dia tivesse passeado em Nova Iorque, atrás do molhado vidro de um táxi.

Chove nesta The New Yorker. Quem anda à chuva molha-se. Vejam como é que se molham, diferentes, os olhos da Eugénia de Vasconcellos e os meus. Molhe também os seus.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Visão, tenha duas: o primeiro táxi de Manhattan

  1. EV diz:

    Que bem colhida essa flor de Cole­ridge num taxi em ama­relo de Van Gogh… E olhe, vou já roubar o tempo medido em renas natalinas.

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