Visão, tenha duas: Táxi

Chove nesta The New Yorker. Quem anda à chuva molha-se. Vejam como é que se molham, diferentes, os olhos do Manuel S. Fonseca e os meus. Molhe também os seus.

TÁXI, A METÁFORA PERFEITA À CHUVA E A REALIDADE AO SOL

Quando era pequena não havia táxis. Noutras casas a existência de táxis era uma realidade, mas na minha só se sabia da existência de carros de praça – descobri, portanto, o táxi mais tarde. O carro de praça era um veículo que supria uma falta.

Ora, a minha avó que não conduzia, nunca conduziu na vida, nem pretendia jamais em tempo algum conduzir, não suportava carros de praça. Lembro-me de pensar nisto como uma grande interrogação, um quase mistério. Se não conduz e gosta de ser conduzida, havia de os adorar… Não. Carros públicos não.

Não é exactamente um segredo bem guardado que a minha avó era para mim a própria da encarnação de Deus na terra e planetas circundantes. Resumindo: só tirei a carta porque me obrigaram. A minha irmã começou as aulas de código assim que pôde e de forma a fazer o exame de condução logo na semana em que faria os dezoito anos. Foi nessa altura que me caiu a bomba em cima, e que parecia mentira, e já a minha irmã mais nova conduzia e lailailai. Enfim. Lá fui tirar o raio da carta. Para quê?

O carro de praça, o belo táxi, é o meu automóvel preferido – a influência de Deus nem sempre levou  a melhor. Pior. Apesar de ter uma vocação pouquíssimo comunista e de defender a propriedade privada, perco uma série de tempo a achar que sou a proprietária do futuro: não quero ser dona de nada – e já fui de algumas coisas, não é real, porém este ponto, ser ou não ser real, é filosófico e logo volto a ele noutra altura mais conveniente. Quero é ser dona do usufruto de algo e enquanto estou a usufruir. Chega.

O que eu gostava era de morar num hotel, ter à porta quando necessário um carro que não fosse meu com um motorista que fosse dele mesmo. Quem diz de isto, diz de tudo.

O meu sobrinho mais velho compreende-me. Filosoficamente. Na altura ele só tinha quatro anos. Estávamos de férias, férias familiares e alargadas como ainda não voltámos a fazer, e alojados num hotel de frente para o mar – bastava descer as escadas para termos os pezinhos na areia. Vínhamos pelo corredor, só a minha irmã, ele e eu. De repente, diz-nos:
– Gosto muita desta nossa casa.
A minha irmã:
– É um lindo hotel, mas não é nosso.
E ele:
– Enquanto aqui vivermos é a nossa casa, não estamos em mais nenhuma.

Tenho um pequenino senão: comprar, possuir, ser dona mesmo de papel passado e ai de quem, gostava, ó tanto, de ser dos livros todos que desejo e espectáculos e lugares do mundo, do sonho das galáxias, tal como sou dona do Cão e a pessoa dele. E como não sou do Amor. É inútil, bem sei, os livros continuarão e eu tão morta, o bailado e os meus concertos já lá estavam antes e estarão depois mim, o que vi nos olhos do Hubble não se agarra, e não há afecto monolítico, sequer o canino. Nem o amor do Amor nem o meu o são ou serão. E ainda bem ou vida seria de altarzinhos de um santo para uma vela. Tudo da vida é em time-sharing.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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9 respostas a Visão, tenha duas: Táxi

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Tirou a carta em Nova Iorque, não tirou? Juro que a vi lá a conduzir um táxi!
    A sua avó pinta bem as suas memórias.

    • EV diz:

      Era eu que ia a guiar de manhãzinha cedo quando ia lá atrás amanhado entre as meninas… Lembro-me perfeitamente, ainda nem carta tinha.

  2. Fatima MP diz:

    Concordo, Eugenia. O verdadeiro barato não é ter coisas, possuir coisas, mas ter acesso a elas, usufruir delas. Esse é o verdadeiro luxo. Não será fácil, a atracção pelo ter é atávica. Mas praticar o desapego é tão mais leve … e depois, esse momento vai chegar mesmo, não tem como …

    • EV diz:

      Tem razão Fátima, é uma coisa que acontece cedo ou tarde… Haja dinheiro que ponha a circular a liberdade de não ter.

  3. Beatriz Santos diz:

    Gosto de ter uma casa minha, detesto que me guiem sendo motoristas apenas; dou-me bem com um carro na porta que seja meu. Se um dia tenha que mudar tudo, mudo. E provavelmente passarei a gostar também. Porém, o modelo de vida que a Eugénia aprecia sai cara (excepto no modelo comunista de que não é adepta).

    Deixo às pessoas de quem gosto essa liberdade desprendida: nenhuma é minha. Mas pertencemo-nos pelo coração, isso sim.

  4. Fatima MP diz:

    Pois, mas aí, fia mais fino. Posse absoluta, regime total de exclusividade (upss .. o que é que isto me lembra ??). Mas há que navegar à vista. Tensão flutuante no ar (Caetano dixit) mas espaço é fundamental. Porém, importante mesmo é apostar fundo naquela palavrinha básica de 4 letras … n digo p n desgastar … E tudo a propósito te taxis, né ?

    • EV diz:

      Tenho um querido primo que em novinho ainda tinha uma namorada de quem gostava muitíssimo. Ora, um dia ela pede-lhe “espaço”. O amor é proximidade, não é preciso ser muito crescido para saber isso. E ele enxofrou-se. E nós nunca o deixámos esquecer porque assumimos como máxima o que ele disse: o monte não te dou porque não é meu, mas além do portão o espaço é todo teu.

      Ps: sempre teve, desde pequenino, saídas geniais, entre o zen, a perplexidade e, vá, o absurdo. Um dia conto a do bacalhau e a da chuva.

  5. Fatima MP diz:

    Muito bom! Mas exclusividade com espaço (assim um espacinho … nada de loucuras) ainda é uma dobradinha saudável Mas, é como tudo, desde que funcione, essa é a melhor fórmula. No caso dele, o monte foi uma proposta muito tentadora …

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