Visão, tenha duas: um jantar em Nova Iorque

Hip Hops Peter de Sève

Hoje ia jantar a Nova Iorque. É Outono e em Manhattan quaisquer 12 graus centígrados sabem a 16 ou 17. Podíamos ser três ou quatro, para a conversa ir de carrinho. A esplanada do Aquagrill, na Spring, é uma delícia, e se nos desse um arrepio, mudávamos de mesa, lá para dentro. As ostras saem de gelo e mar e se mandássemos vir champagne, o promíscuo champagne não se importaria nada com um petit ménage de língua e ostra. Isto na sala, porque depois e porque hoje se marisca, para caminha, o estômago pede vieiras, as grilled scallops, a bivalve carne sólida, superfície acetinada, que se entregam, insinuantes, a uma boa abertura de lábios e dentada firme. É por isso que todo o coração que sai do Aquagrill é um coração apaixonado.

São agora nove da noite e teria almoçado antes, por volta das treze, no infernal Golden Unicorn, enfiado num prédio assustador de uma esquina de Chinatown. É o paraíso cantonês do dimsum. Dumplings de cobre, crepes de veludo, a insaciada boca (perdoem-me o abuso lexical) a goludicear-se na espessura de tanto frito – nada é tão frito como o absolutamente frito da cozinha destes chineses. As salas do Golden Unicorn são decadentes salas de baile protegidas por uns imensos e ronronantes dragões de amarelíssimo ouro. Têm olhos semicerrados e satisfeitos, uma preguiçosa língua em fogo, uma barriga lacada a barbecue e fresquíssimos frescos do mercado. Fazem-se novas amizades no Golden Unicorn.

Antes do Aquagrill, pelas sete e meia da tarde de Manhattan, havia de passar pela Broadway. Volta-se ali, à W 44 St, encostada a bailarinas, bailarinos e actores, como quem volta à escola primária. Ou como quem volta a abraçar o Pedro Bandeira Freire, tão lendário frequentador quão lendário é este Sardi’s, fundado em 1921 e onde se bebe o mais vibrante dry-martini, um dry-martini que irrompe como um tigre e nos faz de todo o aparelho digestivo a mais ampla e luminosa auto-estrada. Bebe-se ao balcão do velho bar, o mais despretensioso e dinossáurico bar de Nova Iorque. Cheira tanto à casa dos nossos avós que só se levam ao Sardi’s os mais antigos e incondicionais amigos.

A capa da New Yorker leva-nos a jantar a Nova Iorque. Janta a Eugénia de Vasconcellos e janto eu. Como é que janta cada um de nós? E como é que jantaria o paciente e esfomeado leitor?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Visão, tenha duas: um jantar em Nova Iorque

  1. EV diz:

    Não sei se vá para NY, se vá fazer umas belas vieirazinhas…

    Ps: o link está out. Não há abraços assim. Ó.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Dois em uma: NY e scallops.
    ps – o link já lá canta

  3. nanovp diz:

    Pois eu ia agora e já…ao Martini e aos fritos, ou um Bourbon antes do jantar no P.J. Clarks (o original, da terceira avenida)…

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