A Dinamarca, Dreyer e o raio de editor que eu podia ter sido

Mas que raio de editor sou eu?
capítulo um

Mas que raio de editor sou eu? Esta Guerra e Paz, que fundei em 2006, foi um tropeção ou uma escolha? Estou amarrado a ela como a Mafia amarra o morto a um pedregulho antes de o atirar ao mar ou a minha onda já vinha de longe – maré cheia, maré vazia, que se converteu, a pouco e pouco, numa segunda natureza?

Os meus camaradas Tristes e os estóicos leitores deste “Escrever” não têm culpa nenhuma das minhas perplexidades e angústias, mas os tempos não estão para se gastar fortunas no psicanalista e eu decidi fazer aqui a minha catarse, e contar uma pequenina história de 33 anos.

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O negríssimo Panorama do Cinema Dinamarquês

Era uma vez o João Bénard e ele é que tem a culpa. Chamou-me para a Cinemateca em 1981. Pouco depois, estava eu a acompanhá-lo e a aprender como se fazia um catálogo. Foi o Hitchcock, de que a Rita Azevedo Gomes fez o que, então, chamávamos simplesmente grafismo e hoje se diz, pomposamente, ser o design gráfico.

Ainda não havia maçãs e muito menos Adobe Indesign. Reuniam-se textos e fotografias à mão e havia tesouras, papel e cola por todos os lados. Mas o prato forte foi entrar na tipografia. Eram oficinas gigantescas – do tempo da gloriosa revolução industrial – num dos edifícios do que hoje é a LX Factory. Foi lá que esse “In Alfred Hitchcock’s” entrou nas máquinas de rotogravura, uma técnica de impressão que permitia aplicar a tinta em quantidades diferentes, de acordo com a profundidade que era dada a células gravadas num cilindro de cobre e bronze de umas rotativas mais majestosas do que o rio Tejo. Estávamos nos anos 80 e, no fim, tínhamos na mão um livro que parecia ter chegado de 1930.

Fiquei com muita vontade de fazer também aquilo. Era viajar de caleche no tempo, como no recente filme do Woody Allen se viaja em Paris. Com cheiro de papel e tinta. Eu quis e fui fazendo coisas a meias, primeiro com o João Lopes (“Jerry Lewis” e “Cinema Americano do Anos 60”), depois com o José Manuel Costa (um revolucionário e “revisa” “Leo Hurwitz” com ar de Jornal Avante).

Our Lord João atirou-me para a piscina sozinho, em 1983, a ver se eu sabia nadar. Devia fazer o catálogo de um vasto panorama de cinema dinamarquês, que incluía o ousadíssimo cinema mudo desses vikings, a obra completa do divino e protestantíssimo Carl Th. Dreyer e uma pequena mostra de inanidades contemporâneas que não tinham nem um pintelho da torturada sexualidade do vizinho Bergman desse tempo. Era uma responsabilidade do caraças. Fui a Copenhaga, estudei, escolhi filmes e fartei-me de jantar fora.

Regressado, queria arrasar, com uma vontade daquilo que sabem, e o João deu-me carta branca – é engraçado, o João ou dava carta branca ou não dava carta nenhuma. Fui desencantar um artista plástico, o Carlos Nogueira. Mal o conhecia, ficámos amigos para a vida. Aliás, liguei-lhe agora mesmo e ele jura-me que foi o primeiro trabalho gráfico que fez.

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Desfaz-se o fitilho e estão lá dentro vamps, feiticeiras e o milagre protestante

Éramos estreantes, queríamos a glória. O resultado foi um catálogo em três volets de 21 centímetros de largura por 30 de altura. Três pastas negras, tão negras como o escuro de uma sala de cinema antes do filme começar. A primeira pasta negra era a do cinema mudo dinamarquês de que, naquele tempo sem internet, me tornei o maior especialista do Porto a Faro – e a verdade é que acabei a escrever sobre a fabulosa vamp que foi a Asta Nielsen, numa enciclopédia da St. James Press, o International Dictionnary of Films and Filmmakers.

A segunda pasta era a de Dreyer. Era a mais gorda, com textos que incluíam colaborações de Manoel de Oliveira e João Lopes, um estudo deste vosso servo, uma prosa do pintor Luis Noronha da Costa que se estribava logo em Heidegger, e três poemas de João Miguel Fernandes Jorge, um dos quais terminava com esta perturbante estrofe: “O óleo / os incensos, / o mundo nem sequer protege a solidão das obras.” Era um livro que se podia e devia espalhar pelo chão da sala: havia, soltas, uma centena de fotografias dos filmes de Dreyer, em preto pretíssimo e branco branquíssimo e, no fim, as reproduções de quatro desenhos de pintores, o Fernando Azevedo, o Jorge Pinheiro, o Alberto José e o próprio Carlos, todos inspirados pelos mistérios de Dreyer.

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O mundo nem sequer protege a solidão das obras

Não falarei da anoréctica pasta do cinema contemporâneo. Direi só que as três pastas vinham atadas por um fitilho branco. Tudo isso posso provar com as fotografias juntas que o meu telemóvel acabou de fazer para memória futura. O que não posso, mas o inspirado Calos Nogueira me prometeu corrigir em breve, é mostrar-vos o papel listado que embrulhava, lacrado, estas pastas. Era um luxo sibarita. Esse papel generoso, sedoso, bianco e nero como uma gravata Armani, era uma barreira que tinha de ser rasgada se se queria ler o catálogo. Metáfora de um tempo em que ainda era possível rasgar alguma coisa. Dir-me-ão se minto, lá para quarta-feira, quando eu aqui trouxer a imagem que o Carlos me prometeu.

Foi este o primeiro livro de que fui editor. Há mais de trinta e um anos, na Primavera de 1983. A começar assim que raio de editor poderia eu ser? Editor bissexto? Acreditem ou não, o João, meu e Nosso Senhor, depressa me pôs outros meninos nos braços. Já vão ver, nos próximos capítulos, que raio de editor é que eu podia ter sido.

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Um livro que se pode espalhar pelo chão da sala

um post-scriptum

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Intocado, virgem, aqui está o Panorama do Cinema Dinamarquês. Foto de João Aguiar

O Carlos Nogueira, meu companheiro de “aventura editorial”, mandou- a foto. Digam lá que a fachada do livro não era sumptuosa?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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10 respostas a A Dinamarca, Dreyer e o raio de editor que eu podia ter sido

  1. EV diz:

    Confesso que estou deserta pelo capítulo 2. Mas creio, e apesar de não ser revisora, que tem, vá, umas gralhinhas no título: O raio do editor e escritor que sou.

    O podia não é imperfeito, é futuro condicional.

  2. E nunca um paradoxo temporal…
    Devem ser uns catálogos e pêras.

  3. Beatriz Santos diz:

    Está bem humorada a história. Aguarda-se o desenrolar dos acontecimentos.

  4. nanovp diz:

    Sente-se o peso Manuel, e o cheiro a tinta…

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