Amor&Café

AMOR&CAFÉ

Hoje é dia 17 de Novembro, segunda.

O café está ralo, sabe mal ao fim, ali entre o amargo e o ácido. A máquina perde água e faz um ruído estranho. Cansaço, talvez, de uma curta vida a tirar café. Os electrodomésticos já não são feitos para durar nem para serem arranjados quando se avariam.

Quando era pequena, pensava que isso de frigoríficos perfeitamente bons jogados na rua era um vício americano do comportamento. Uma desconsideração que se reflectia ali de patas para o ar e grelhas ao léu. Agora somos todos americanos. A máquina de café também deve ir para o cemitério perfeitamente boa, há-de ser uma borrachinha ou outra coisa menor.

A questão nem é a do expresso cheio de creme. Também gosto muito do café de cafeteira e o cheiro a espalhar-se pela casa e eu feita cartoon levada pelo nariz. Feliz. (Há uma coisa risonha no i e mais ainda no iz, tão risonha que até uso parêntesis e disso não gosto nem um bocadinho: sis não é iz.)

Na verdade, o mundo não está para café. Está para cápsulas. Não sou alma para encapsular café e estou um bocadinho de farta de dar com o George Clooney por tudo quanto é lado, da Nespresso aos relógios Omega. A culpa não é dele nem dos senhores da publicidade: nunca tive interesse por actores, cantores ou quaisquer animais de palco. Nem na adolescência quando se fazia um-do-li-tá a sortear Duran Duran como cromos: ficava sempre livre de quem está livre, livre está. Que alívio.

A minha avó dizia que andava ao engano. Eu, não ela. Porque afirmava a pés juntos que queria casar. Pensava, sempre pensei, que o casamento me assentava bem porque sou mansa, tenho o prazer da casa e da fidelidade. A minha avó dizia que o casamento era outra coisa, que eu amava o amor e a liberdade. Fui casada. Detestei. Divorciei-me. Um divórcio é outra violência igualmente detestável. Apesar das generalizações não me agradarem por aí além, os homens olham para as mulheres como eu olho para esta máquina de café. Não quero isso para mim. Nunca quis. Graças a Deus, quando me aconteceu, correu mal. Fiquei livre mesmo às portas do inferno. Doutra forma acho que quem estaria no cemitério perfeitamente bem seria eu.

Uma vez ouvi a Paula Rego a falar do marido. De como ela o admirava. E ele a ela. E de como cortava muito bem cortadinhas para as suas colagens tiras de ódio e de ciúme. Ninguém a interrompia quando ela se fechava a pintar. Para que serve o amor se não for para nos ajudar a ser? O resto dele é alegria. E mesmo tiras fininhas de ódio e ciúme. Cama. O amor não se fecha em cápsulas, nem se joga fora. É feliz mesmo quando lhe falta o iz: quando se lê fel é só porque precisa de arranjo.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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21 respostas a Amor&Café

  1. Pedro Bidarra diz:

    Ás vezes é isso mesmo, só precisa de uma borrachinha

  2. Beatriz Santos diz:

    Afinal, sendo mansa, caseira e fiel também teve os seus factos detestáveis e violentos aos quais tem decerto evitação também violenta, ou não estaria escrevendo aqui, que os mortos são assim, dados ao desconcerto de não tugir nem mugir.

    • EV diz:

      A violência faz parte da natureza, e da nossa natureza, não se pode evitá-la ou o monstro cresce, tem de se levá-la de trela.

  3. A. diz:

    A grande verdade é que uma xícara de café é para a vida inteira. O casamento, nem sempre.
    🙂

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Talvez o casamento se pareça mais com a feliz Bimby do que com uma cafeteira italiana.

  5. nanovp diz:

    O café não se deita fora, só a máquina…o casamento às vezes sai todo porta fora…

  6. Mario diz:

    Eu casei-me com uma máquina de café, mas das antigas, com manipulo, tem que se ter jeitinho senão o café

  7. Mario diz:

    Desculpe, o comentário era bem maior do que isto, so apareceram as primeiras 3 linhas, não sei porque…deve ter sido café a mais 🙂

  8. Manuel diz:

    A Eugénia faz revisão de texto?

    • EV diz:

      São apenas posts, não revejo grande coisa, confesso.

      • Manuel diz:

        Não é isso Eugénia! Tenho um romance escrito e necessitava de alguem que me revesse o livro. Eu pago para isso e gostaria que fosse a Eugénia.

        • EV diz:

          Estava a léguas…

          Agradeço-lhe muito a confiança, mas não a mereço: a revisão de um romance pede competências profissionais que não tenho. Posso, no entanto, indicar-lhe um excelente revisor, não lhe vai perdoar um ai – e isso é tudo o que quem escreve precisa: Helder Guégués.

          • Manuel diz:

            Bom dia Eugénia! Agradeço-lhe a indicação. Já agora conhece alguem que faça tradução para inglês e que me possa aconselhar? Abraços

  9. Fatima MP diz:

    Mas o meu amor não gosta de cafė, só adora o cheiro. Por isso faço café pela manhā, do jeito antigo, passado pelo coador e o aroma inebriando toda a casa, da cozinha ao acordar feliz. Truques do amor? Que nunca nos falte o café …

  10. EV diz:

    Caro Manuel,

    Não posso lhe recomendar um tradutor. Depende do seu texto, dos seus objectivos, das disponibilidades… Procure uma obra traduzida cujo trabalho respeite, verifique se é adequado ao seu texto e qual a disponibilidade do tradutor.

    Boa sorte

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