Bem podia ter aprendido a fazer livros

Foram mesmo muitas mordomias. Deixavam-me viajar. Podia falar com artistas. Escolhia papéis e capas. Bem podia ter aprendido a fazer livros. Ou seja, vamos lá ao segundo capítulo das minhas aventuras editoriais.

Mas que raio de editor sou eu?
capítulo 2

25 de abril

A miúda da capa, gira que se farta e “buleversando” a masculinidade do 25 de Abril é a Nucha. A imagem é do filme de Manoel de Oliveira

A minha primeira vez, confessei aqui e aqui, foi escandinava. Uma coisa depurada e dreyeriana. Seguiram-se algumas orgias editoriais, ménages autorais a muitas mãos, como foi esse breve catálogo que se fez na Cinemateca para comemorar o décimo aniversário do 25 de Abril, capa lindíssima e um design que se deita com o construtivismo soviético para acordar ao lado de Andy Warhol

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– é, por mérito de João Botelho e de Luís Miguel Castro que o conceberam graficamente, um pequeno catálogo precioso, mais do que pelo que dá a ver, do que pelo que nele se pode ler. Isto sem desfazer no que está escrito, se é que não desfiz já.

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A sós (e estou a falar outra vez de livros), numa deriva berlinense e feminista, fui ter com uma cineasta alemã, Helma Sanders. Mostrou-me Berlim, o Muro, levou-me a almoçar e, até porque falávamos em francês, bebemos champagne, numa altura em que do lado onde estava a Senhora Merkel talvez só se bebesse vodka.

Helma Sanders

Organizei-lhe uma retrospectiva integral e fiz-lhe um catálogo a cores, que era afinal um livrinho de bolso, de que fiquei com o monopólio dos textos. Lembro-me da epígrafe – “Humilharam as mulheres em Sião e as virgens nas cidades de Judá” – que fui buscar às “Lamentações de Jeremíadas”, 5,13.

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E o meu texto arrancava assim: “Mais do que a recorrência do calvário feminino, é a nação alemã que constitui a matéria mesma do cinema de Helma Sanders…” Na altura, usar uma expressão como a “matéria mesma” era uma forma subliminar de mostrar raízes materialistas e dialécticas ficando ao mesmo tempo escarrapachado que, por via de uma altiva superação lacaniana (Vincennes Paris VIII), já se estava muito além disso.

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E isso foi em Setembro de 1984. Em Outubro de 1985, já eu estava a fazer, outra vez sozinho, um catálogo sem a mínima marginália. Desta vez, porque os italianos são uns somíticos, não fui a Itália estudar o autor. Foi ele que veio a Portugal apresentar a retrospectiva – também integral – numa das visitas mais divertidas que um cineasta fez (no meu tempo) à Cinemateca. Estou a falar do Michelangelo Antonioni.

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O catálogo é um livro de vermelha capa dura com sobrecapa branca. O miolo foi pensado para casar com a famosa trilogia da malattia dei senttimentti que são L’Avventura, La Notte e L’Eclisse. Paginou-o Luís Miguel Castro, dando quase sempre às fotos 2/3 da parte superior da página. Por mérito do Luís, ficou, visualmente, um catálogo antonioniano, sóbrio, bianco e nero. Obriguei-me a uma disciplina de escrita que privilegiasse a comunicação, tentando fugir às tentações de hermetismo, culturalismo e outros danados ismos, a que era então muito chegado. Ou seja, e como diria o João Bénard da Costa, obriguei-me a escrever em prosa de gente. Eu tinha 32 anos e talvez tenha redescoberto com este livro as delícias do classicismo e da normalidade. E tenho a certeza de que, com a sua capa cartonada, o texto e fotografias organizados de forma regular, este era um livro que se podia mostrar a um inglês ou levar na mão à Fundação Gulbenkian. Antonioni levantou-o, como se fosse o Livro Vermelho, à sua chegada ao aeroporto de Lisboa, num tempo em que havia magotes de jornalistas no aeroporto para receber um realizador de vanguarda.

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O Antonioni tem o livro nas suas mãos e a foto é do António João Neves.

Se julgam que “e prontos, já está!”, era a isto que eu editorialmente aspirava, desenganem-se. Mas era a etapa de que precisava, se queria sonhar outros sonhos. Cenas de próximos capítulos, claro.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Bem podia ter aprendido a fazer livros

  1. EV diz:

    Confesso que me farto de gostar destes textos.

    Deixe-me fazer contas narcisistas. Portanto, na altura em que os 32 anos do seu bigode eram mate­ri­a­lis­tas e dia­léc­ti­cos e sua supe­ra­ção laca­ni­ana estava na postura intelectual, tinha eu 16 anos e nem materialismo nem Lacan, nem um catálogo para amostra.

  2. Beatriz Santos diz:

    Parece que aprendeu a fazer livros. Primorosos. Sobre cinema. Ou será impressão minha, mas têm páginas escritas, capa…não li nenhum é verdade. Afinal o que é que lhes falta. Marx não. Nem Lacan. Não estou certa se esses dois não seriam mais um constrangimento que uma ajuda a um livro que se escreva. Depende do livro. E do escriba.

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