Correspondência Interrompida (1)

Querida C,

Agora que os céus se toldam com a vinda do tempo escuro, as cores desaparecem da paisagem, os verdes, amarelos e grenás, substituem-se por sienas escuros e dourados, terminando por fim num manto cinzento que tudo cobre. Ainda não me habituei ao frio,ao fim de tantos anos, este frio verdadeiro, implacável, sedutor também, entrando pelos corpos, até ao âmago dos ossos, que o sentem em dor.

Mas há algo de belo, inexplicável, em vivermos contra o mundo, contra a natureza.

Olho o mundo lá fora por esta brecha enorme, imagino o universo a rolar, vagarosamente, até ao infinito, enquanto penso que é tarde de mais para mudar. E também não sei se gostaria de mudar…para quê? Para onde? Haverá paraíso neste universo estrondoso que se mantém vivo ao longo de milhões de anos, onde o homem é apenas um pequeno grão de areia, mas de ego gigante, desproporcional? Haverá fuga possível? Nem entre nós.

As guerras começam em casa, em nossa casa, e normalmente entre nós próprios. Antes de odiarmos os outros já nos odiamos a nos próprios.

Olho outra vez este manto cinzento, duas árvores apenas, secas mas hirtas, sobre o campo aberto, a neve cobriu tudo, as ruas são agora pequenas linhas escuras, os telhados confundem-se com o manto do chão.

Saudades do calor e do sol forte que aquece o corpo nu, deitado sobre a cama? Claro. Mas agora estou aqui. Prefiro pensar que de noite me aqueces, e por cada minuto de luz dar graças, ou lembrar dias que se tornavam enormes, sem sair de casa, enroscados nos cobertores sobre a cama, deitados de costas, a ver os esquilos que saltavan de árvore em árvore, tão perto da casa.

Muito da vida passou por mim, ao lado, despercebida. Nunca soube ver os sinais. É como naqueles filmes americanos que o temível perseguido passa mesmo em frente do perseguidor, mas este não o reconhece, e deixa-o fugir. Não aprendemos a ver o mundo, criamos lentes especiais que nos retractam uma ficção mais apetecível, mas que se transforma com o tempo numa realidade podre, sem sentido.

A vida é isto, estar a escrever-te a milhares de quilómetros de distância, e olhar o tempo lá fora que escorrega em água derretida.

 

 

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

4 respostas a Correspondência Interrompida (1)

  1. EV diz:

    Este é um exercício difícil, a carta que escreveríamos, e a quem, se estivéssemos longe do mundo e o ângulo fosse essa brecha enorme.

  2. Beatriz Santos diz:

    Não havia pensado que vivemos contra o mundo, a natureza, mas é mesmo isso, vivemos a fazer fincapé na nossa visão desfigurada pensando-a talvez objectiva

  3. nanovp diz:

    O Homem surpreende-se e assusta-se com aquilo que não domina…

Os comentários estão fechados.