Correspondência Interrompida (2)

Querida L:

De repente, como um solavanco na estrada, um soluço na voz.

De repente, olhamos por instantes a vida como um todo. O universo infinito, e o mundo que rola como uma esfera perdida num espaço sem amarras. O dia-a-dia torna-se estranho, porque saboreaste o cume do amor, onde tudo se entende, porque nada é dispensável. E não queres voltar atrás. Por entender que o amor era  poder mandar no mundo, e que nada mais interessava, a não ser o momento minúsculo que se eternizava com o passar do tempo.

Os muros brancos que delineavam a estrada enchiam-se de sombras com o caminhar do dia, o cheiro a lenha seca corria com o vento. Gostava de sentir o calor das mantas sobre os joelhos, o álcool forte que deslizava pela garganta, a roupa que cheirava a fumo.

Escrevo-te para dizer, que ao fim de todo este tempo, tinhas razão. Não gastarei mais um minuto que seja, na censura daquilo que não posso entender. Tinhas razão, e vejo agora como durante tanto tempo me perdi sonâmbulo na vida, esgazeado no olhar de tudo o que passava por mim.

Fugi. De mim próprio porque nunca me quis ver ao espelho, nunca me apeteceu confrontar-me a mim mesmo. Mas tive de fugir de todos também, e de ti claro.

Não são só saudades, são tonturas de não aguentar o movimento do mundo. Sofro de uma alegria envelhecida, rugosa, que precisa de companhia sorrateira.

Neste solavanco que sinto, ganho a certeza de que sozinho avanço para um mar profundo onde me afogarei…

Invented landscape, R.DiebenKorn

Invented landscape, R.DiebenKorn, 1966

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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4 respostas a Correspondência Interrompida (2)

  1. Beatriz Santos diz:

    Não tinha pensado que “o amor era poder mandar no mundo”; e no entanto talvez seja um mandar no mundo sem dar por isso.

  2. CC diz:

    Tão bonitas estas cartas num tempo em que quase já ninguém as escreve.
    ~CC~

  3. nanovp diz:

    São as auto-estradas da comunicação…ainda bem que lhe parecem bonitas…

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