Ephemerós

Fica feita a declaração de interesses: por razões que alguns conhecerão e outros adivinharão, sou suspeito para falar ou escrever sobre as qualidades artísticas da fotógrafa Maria Costa. Mas, se o sou, tal não significa que deva abster-me de me pronunciar quanto ao mérito dos seus trabalhos fotográficos. Obriguei-me então a uma solução de compromisso. Vesti um fato de isenção e objectividade à prova de bala, tal como se não a conhecesse de lado nenhum, antes de ir espreitar a série de imagens que, a partir de hoje (6 de Novembro) e até 20 de Dezembro, estarão em exibição no Atelier 29, ao Cais do Sodré (Travessa do Corpo Santo, n.º 29, 1.º andar). Saiu o texto que deixo abaixo. Mais uma vez, deixo o alerta: porque a Maria se reviu nele, o texto lá acabou por ficar numa folha de papel, com o pomposo título de “Folha de Sala” da exposição. Mas o leitor está desde já convidado a aparecer no Atelier 29 e julgar as imagens por si próprio. 

convite ephemeros

 

So soon as a fashion is Universal, it is out of date”, Maria Von Ebner-Eschenback

Que a moda e a imagem não vivem uma sem a outra, essa é a mais elementar das evidências. Que não se imagina juntar duas palavras sobre as tendências da moda sem uma câmara fotográfica por perto, qualquer um o dirá também. Mas como reproduzir o lado menos materializável ou tangível da moda, aquilo que constitui verdadeiramente a sua essência, que faz da moda o que ela é? Como retratar em imagens o carácter efémero e volátil da moda, o simulacro em que assenta, a negação – só o é quando deixa de o ser – que constitui o seu fundamento?

É, justamente, esta interrogação que a câmara de Maria Costa persegue. Não para lhe dar uma resposta – porque a arte, já o sabemos, não tem a pretensão de encontrar respostas, sim a de levantar questões, combater certezas ou inquietar consciências – mas para nos permitir, talvez, um olhar diferente sobre o desejo colectivo que a moda corporiza. Na exposição de estreia da autora, sugestivamente intitulada Ephemerós, enquanto a câmara vai percorrendo alguns dos clichés associados à iconografia do universo da moda, uma espécie de inebriamento, de torpor, parece soltar-se do jogo de luz e sombras proveniente de imagens difusas, arrastadas ou fragmentadas. Como se cada um desses clichés se dissolvesse no exacto instante em que o nosso olhar neles se fixa. Como se o mesmo olhar se turvasse com cada montra ou expositor que invade o nosso quotidiano. Como se, quanto mais turvo o olhar, mais nítido se tornasse o desejo consumista. Ou talvez não seja bem isto que a objectiva irónica de Maria Costa nos quer dizer. Talvez nos queira dizer, muito simplesmente, que é a moda que nos faz verdadeiramente felizes. E ai de quem queira tirar-nos o prazer da felicidade baseada em tão doce ilusão.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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6 respostas a Ephemerós

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Suspeito és, mas que a Maria fotografa muito bem já eu sabia. E outra coisa: gosto muito deste texto. Assim como gostei de um outro que escreveste para outra “folha de sala”. E fica-me a ideia de que as folhas de sala deviam todas ser escritas assim, por quem não é daquela sala.

  2. Ivone, mas que simpatia a tua. A verdade é que pouco ou nada saiu da minha cabeça: os meus dedos foram comandados pela força criadora das fotografias da Maria.

  3. Só sei que apetece: talvez por estar tudo a descambar em felicidade.

  4. Beatriz Santos diz:

    não vi a exposição( mas fiquei disposta a), desconheço Maria e concordo em absoluto com o final da folha de sala; mas com alguma pena, é uma ilusão pequena demais a da moda, ainda que tão ilusão como outra de qualquer tamanho.

  5. nanovp diz:

    Irra que falhei a inauguração…como diria o Eça…mas felizmente já tinha tido a oportunidade de ler a “folha de sala” …

  6. porque não mandam convites aos primos? arre!!!! Parabéns à Maria.

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