História, amor e bola

west-rules

 

Why the West Rules — For Now: The Patterns of History, and What They Reveal about the Future” de Ian Morris.
John Gray, o filósofo mais céptico e pessimista dos nossos tempos, e que não tem por hábito dizer bem de ninguém nem dar o seu ámen por dá cá aquela palha, disse isto da obra de Ian Morris: ” It is an impressive achievement, a grand theory of history that can be compared meaningfully with those of Toynbee and Marx.” Ian Morris, mais do que um arqueólogo, é um polímata e este livro é o resultado de muito saber por muito ver. É uma obra que nos liberta da actualidade, do dia a dia, e que nos faz ver tanto para trás como para a frente. Embora para a frente, já se sabe, apenas ficção e mito. Ian Morris ainda crê, embora veladamente, que há esperança e que os cinco cavaleiros do apocalipse não voltarão a galope. Voltam de certeza. Na corrida entre uma solução que nos liberte dos constrangimentos biológicos, ele fala na Singularidade de Kurtzweil — um mito, segundo o grande John Gray que o modesto eu subscreve — e o Cair da Noite, quando os cavaleiros do apocalipse mais uma vez cavalgarem sobre nós, as probabilidades, bem feitinhas as contas (e ele fê-las) estão a favor do Cair da Noite.
Grande leitura este Why the West Rules—For Now (demagogicamente traduzido em português como O Domínio do Ocidente). É sobretudo um olhar fresco e mais objectivo (que muitos outros) sobre a história desta espécie motivada pela preguiça, pelo medo e pela ganância.

fedro-platc3a3o

Fedro de Platão
As leituras estão sempre desactualizadas.
Por estranho que pareça, não sei, sequer, se é comum entre gente que normalmente lê, eu devo ter em casa tantos livros lidos com livros por ler. Não dou vazão à coisa. Leio devagar e compro depressa. E não tenho ordem nem lógica, seja cronológica, temática ou autoral, no que leio. Tenho, sim, uma pilha de livros atrasados de que me vou servindo como um burocrata da justiça ou das finanças se serve, quotidianamente, de mais um dos muitos processos que tem empilhados e que vai aviando e arquivando com dedicação funcionária. Assim me dedico eu à leitura, como um diligente funcionário rodeado de torres de papel. Felizmente, o que o bom texto tem de bom é que, ao contrário da roupa ou da fruta, não se estraga com o tempo. Da pilha saiu agora Fedro de Platão. Estava lá faz anos, talvez décadas. É sobre amor e retórica, dois assuntos de que eu, presunçosamente, julgava saber mais do que sei.

41eSE2QA7fL

Canterbury Classics
Desatei a comprar livros da colecção Canterbury Classics. Comprei o Moby Dick, The Art of War, The Prince and Other Writings, e The Scarlet Letter. Os três primeiros já tinha lido em português. Estou a ler o Nathaniel Hawthorne e em boa hora; o romantismo negro é o tom que melhor se adequa à minha disposição actual.
Mas a compra da colecção foi motivada, não pelo texto, mas pelos objetos em si mesmos. São livros lindos, feitos em capa de pele, ou tipo pele (o toque é o mesmo), com letras e ilustrações gravadas em relevo, e com mais ilustrações lindas nas guardas. Os tipos usados são elegantes e toda a disposição gráfica do texto é uma delicia para os olhos. Mais do que livros, são objectos com bom texto lá dentro; livros gulosos.

 
nba_sap_ballNBA e NFL
Coneçou a NBA e a NFL. Começou o Inverno. O desporto norte americano, bruto, intenso, exagerado, gritado, filmado de todos os ângulos, cheio de gente grande, de esteroides e de histórias é o melhor desporto do mundo. O futebol, o nosso futebol, também podia ser, mas é mal filmado, mal comentado e, sobretudo, mal contado. O nosso futebol é visto à distância, do terceiro anel, e o texto que o acompanha é irrelevante, reverente e indigente. Na NBA e na NFL há protagonistas, há dramas, há vinganças, encontros e desencontros, há ódios e rivalidades públicas, há desafios, enfim, há histórias. E há mais duas coisas importantes: há estatísticas, números que contam a história do passado e que nos transportam para as cenas dos próximos capítulos, e há jornalismo, gente que investiga, conta e sabe os números de cor e salteado. Começou a época.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

Esta entrada foi publicada em Ando Nisto. ligação permanente.

12 respostas a História, amor e bola

  1. CARLOS MARQUES diz:

    NBA| NFL|Basquetebol?
    Só quem não viu(pelo menos uma vez na vida) um FLA-FLU ,num domingo solharento, no velho “Maraca” e/ou leu no dia seguinte a crónica do jogo assinada pelo Nelson Rodrigues no “Jornal dos Sports”, pode ter essa opinião….

    • Pedro Bidarra diz:

      Não podia ter acertado mais na baliza, por assim dizer. Talvez o Carlos Marques seja muitíssimo antigo e tenha podido realizar o que, para mim, não foi possivel em consequência de ter nascido apenas ontem: assistir a um FLA-FLU e ler no dia seguinte, no jornal, uma crónica do Nelson Rodrigues. O que li dele, À Sombra das Chuteiras Imortais, chegou-me em diferido, já ele tinha ido ter com os deuses da bola.
      Mas reafirmo o que disse: o futebol, o nosso, é muito mal narrado. É um belo jogo mas podia ser ainda mais belo se fosse mais bem contado.

      P.S.: Eu não escreveria um título em forma de desprezo pelo gosto alheio (tipo, Primeira Liga|Futebol?). Há espaço para tantos gostos diferente, não há?

      • CARLOS MARQUES diz:

        Ser antigo não é propriamente um mérito, mas pode ser uma vantagem, E para que não fiquem mal entendidos digo de minha justiça: Gosto, também, de Basquetebol.
        Como sou “muitíssimo antigo”, comecei a gostar muito antes de saber da existência da NBA, dos Chicago Bulls de Michael Jordan , Scottie Pippen & cia.
        Em Luanda na década de 1960, ver jogar o meu “Vila” ( Futebol Clube Vila- Clotilde,que apesar do nome era no Basquete que dava cartas , Ver o Vila era (quase) tão importante como ir ao Campo de S. Paulo, assistir a um grande “tremuno” entre a Associação Académica do Zangado e os Onze Perdidos da Bola.
        Mas a minha convicção é esta: Todos esses pequenos desportos passarão. Só o FUTEBOL é eterno!

  2. Boas leituras, Pedro. E concordo quanto à Singularidade do Kurtzweil, embora o homem mude de opinião – e datas – cada vez que edita um livro. É louco, mas fazem-nos falta mais loucos.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    O nosso futebol é horrorosamente narrado. Ou são tretas tácticas de que os treinadores de futebol se riem, ou são umas informações laterais que não lembram ao diabo e que anulam a carga dramática do jogo. Uma desgraça.

    • Pedro Bidarra diz:

      Ora ai está resumido o que eu acho. Um jogo dura mais de 90 minutos. Dura todo o tempo que o antecede e todo o tempo que o segue até ao proximo jogo. Esse tempo é o tempo do texto e da narrativa, que podia ser tão boa.

  4. nanovp diz:

    Inveja de não comprar hoje o que quero ler…até já leio em pdf…a puta da crise….

  5. Maria João Freitas diz:

    Pedro, o título é irresistível, os textos dão mesmo vontade de ler e a paginação chamou-me logo a atenção. Tem direcção de arte e uma forma elegante de resolver o problema das imagens de vários tamanhos, formatos e estéticas. Vê-se que andas nisto (e bem) há muito… Vou plagiar, um destes dias.

Os comentários estão fechados.