As Flores do Mal

norton

Esta fotografia, de Pedro Norton

Há coincidências felizes .
Sobretudo quando as coincidências não são a réplica ponto por ponto das coisas que coincidem. Eu escolhi, como vos tenho andado para aqui a pregar há semanas, um conjunto de textos pessoanos, infectados por vícios. O Pedro Norton, meu companheiro dessa aventura, escolheu fotografar um manipulado e encenado real que ele infectou à sua maneira. Esses textos e essas fotografias coincidiram no livro de madeira chamado
As Flores do Mal. Mas, agora, as fotografias – pelo menos parte delas – descoincidiram do livro. São o que são, fotografias, imagens, vaidosas de si mesmas, pictures at an exhibition. Estão, para serem vistas, e só até sábado, n’ A Pequena Galeria. De lá vão sair para casa das pessoas que nelas se revêem e nelas se exaltam.
Eu já tenho saudades delas e desse momento em que, no quente mês de Agosto, as juntava e confrontava com os poemas e os textos de Pessoa. Foi então que escrevi este texto, que também coincidiu com essas fotografias e poemas. Aqui se solta, livre – descoincidindo.

Capa-Pessoa

Este livro, de Fernando Pessoa

um livro de vícios
por manuel s. fonseca

Este livro, As Flores do Mal, nasceu da vontade de ter Fernando Pessoa no meio de nós, na rua, no café, onde ele possa fumar e beber.

A obra de Fernando Pessoa tem hoje publicação sistemática e crítica. Os estudos iniciados por Casais Monteiro, Gaspar Simões, Jorge de Sena, entre outros, têm vindo a ser academicamente renovados, ampliados e aprofundados por Teresa Rita Lopes, Eduardo Lourenço, Richard Zenith, Jerónimo Pizarro, George Monteiro, Onésimo Teotónio de Almeida e mais uma valorosa lista de ensaístas pessoanos. A par de Camões, Pessoa é o mais bem estudado dos nossos poetas. É bom que assim seja. Este livro, a que demos o libérrimo título de As Flores do Mal, não faz parte dessa família. Se porventura tiver algum improvável mérito, há-de ser o de nos mostrar, de Pessoa, um ângulo original, um ângulo, digamos, baudelairiano.

Este é um livro de vícios. Ou de vício. Em nada e para nada nos interessa ir de pá e picareta escavar-lhe arqueologicamente a biografia e saber se Pessoa se embebedava, afundava no ópio ou se espetou alguma agulha morfinómana no delicado braço. Por mais que tenha feito tudo isto ou a mínima destas coisas, o que neste livro conta é a forma como os vícios, as drogas americanas que entontecem, lhe iluminam a escrita. Os poemas e os textos deste livro bebem absinto e vinho louro, e tanto fumam ópio como deitam fora um cigarro meio fumado.

Um verso, «Dêem-me de beber, que não tenho sede!», encerra o paradoxo central dos textos aqui reunidos. Todos os textos falam de vícios, do que hoje chamamos drogas recreativas, da aguardente à morfina. E em todos, a voz que fala – seja a voz de Pessoa, a de Campos ou a de Bernardo Soares – exprime pessoal e intimamente o que cair no ópio como numa vala, beber ou fumar desencadeia no Pessoa que é cada uma dessas vozes.

Foi esse o critério de selecção dos textos deste livro. Podíamos ter incluído todos os textos em que Fernando & Companhia usam a palavra «cigarro» ou a palavra «morfina», em que cantam o vinho ou o ópio. Escolhemos incluir apenas os textos em que o poeta se funde fisicamente com as suas drogas. O advérbio «fisicamente», diga-se, não tem aqui qualquer valor biográfico (ou pouco importa que tenha), antes designando a forma como o cigarro, o fumo, o vinho roçam a consciência do poeta, quando ele em sonhar-se a fumar ópio, em sonhar-se a receber morfina, se embriaga da ideia do ópio, se embriaga da ideia da morfina, como o poeta fará confessar a Bernardo Soares.

«Ópio tenho-o eu na alma» é outro verso que baliza este livro dos vícios em que Pessoa poeticamente se locupletou e se atormentou. Ao critério de selecção juntámos uma linha narrativa deduzida do pathos de cada um dos textos. E são cinco as formas como Pessoa experimenta, ou padece, as suas drogas: inocência, êxtase, confissões, abandono e decadência.

Entendeu-se que à singularidade do tema deste livro deveria corresponder uma edição feita com materiais originais. O vício pede secretismo. Os vícios, por natureza, escondem-se, seja nas caixas misteriosas da nossa infância, seja nas trancadas gavetas da vida adulta. Foi a pensar nessas caixas e gavetas que decidimos fazer este As Flores do Mal com uma capa de madeira, processo nunca usado, tanto quanto sabemos, numa edição em Portugal.

Já se disse que este livro nasceu da vontade de trazer Fernando Pessoa para o meio de nós. E nós, hoje, vivemos em imagem, numa sociedade da imagem: somos imagens. Terá sido em 1914 que Fernando Pessoa disse: «Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais.» Hoje, cem anos depois, neste século XXI que Pessoa não conheceu, se ainda há divertimentos intelectuais, um deles, ou mesmo o único, é ver imagens, imagens cuja multiplicação faz dos nossos dias o tempo e o lugar do mais intrincado e pessimista romance policial que um deus pessoano poderia ter escrito. Se queríamos, como dissemos, trazer Pessoa para o meio de nós, e se hoje vivemos num mundo afogado por ecrãs e imagens, da ecografia pré-natal às selfies, era num mundo de imagens que tínhamos de lhe paginar os poemas. Aqui estão, poemas e textos sitiados por 51 fotografias.

Da autoria de Pedro Norton, as fotografias que integram este As Flores do Mal são imagens contemporâneas, imagens de vícios, talvez. E se, por acaso, são imagens mórbidas ou de decadência, são-no da nossa decadência, da nossa morbidez. Não querem roubar a alma – ou qualquer chamada essência – aos textos de Pessoa. Não são retratos de Pessoa nem a simulada reconstituição dos seus poemas ou das suas reflexões. Pedro Norton, propositadamente para este livro, quis criar fotografias à conversa com as palavras de Pessoa na rua, no café, na sombra insidiosa de um quarto.

Lidos seja onde for, no meio da rua, no café ou no quarto, lidos onde se fuma e bebe, estes são poemas e textos que, pela sua natureza, vão ser lidos em sobressalto. Também, por isso, a paginação deste livro não é uma paginação canónica. Tomaram-se liberdades, liberdades de um leitor exaltado e interventivo, quer na mancha do poema, quer no corpo e no tipo de letra, atribuindo a alguns versos ou frases uma redobrada veemência e fazendo deles uma imagem gráfica que tem ecos de Orpheu e de um gosto futurista de que pelo menos o heteronímico engenheiro de Pessoa poderia gostar. No mesmo poema os versos não são todos iguais porque, afinal, também os vícios não são todos iguais.

Como toda a conversa de vícios, esta é uma conversa com danos colaterais: não se admirem se acontecer que haja por aqui páginas em que se morre de fogo amigo; nem se espantem se vierem a descobrir um bom e secreto crime de guerra nesta bélica conversa em que fotografia e poema falam de um século para outro século.

«Ópio e morfina compram-se nas farmácias.» Este livro, de Fernando Pessoa, fotografias e madeira, compra-se nas livrarias. O que une tudo isto, livro, ópio e Pessoa, morfina, fotografias e madeira, é serem, como ele mesmo disse, escadas para o sonho.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a As Flores do Mal

  1. riVta diz:

    do princípio ( foto) ao fim ( sonho) …precioso
    obrigada

  2. Beatriz Santos diz:

    “uma escada para o sonho” . Mas com corrimão. Boa imagem num texto belo e robusto. E se foi feliz está de parabéns. Qualquer tempo verbal serve bem ao sujeito que sofreu tal atributo. E o que foi é aquilo que já ninguém pode retirar:)

    E que acontece a Pessoa se quem lhe persegue a alma nos poemas e outras tantas coisas que escreveu, não curtir fumos ou álcool. Não quero pensar que seja presa desses não presta. Ora esta.

  3. EV diz:

    As escadas para o sonho fazem-se com degraus como os que neste texto escreveu.

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