Cantas-me ao ouvido

CANTAS-ME AO OUVIDO

E nada disso me interessa.
Houve o tempo
em que me media pela altura do teu ombro,
e do teu, meus amados ídolos frágeis,
e atrás da porta marcava
a ausência de novos centímetros a cada ano.
E chorava.
Ignorância e inocência eram o meu nome.
O esforço inútil vigiava-me o sono e eu,
noite após noite acordada
de incompreensão da mecânica
do lugar das pessoas no mundo,
da seiva dos merecimentos,
a buscar solução para o que não há,
não pode haver, nem deve, se desequilibra
a posição do Anjo nas hostes celestes
e a correspondente cosmologia da vida na Terra.
Na faculdade,
a minha amiga dizia, antes de fechar a luz e dormir,
quando acabar este livro, empresto-te,
tens de o ler, é bom.
Quando ela se levantava, devolvia-lho lido,
tens razão, respondia à manhã
levantada com ela, é bom.
E os meus dias continuavam a ter
vinte e quatro horas inteiras
até à náusea da puríssima exaustão
almoçada com a ineficácia do Migraleve.

Não é que teus conseguimentos,
centímetro a centímetro, não valham,
valem, e os teus, e os teus, meus ídolos de outro tempo.
Mas quem não acrescenta ao conhecimento
rouba-o, e tu que me fizeste chorar, sabe:
não nasci dos teus pés,
não me pisarás,
nem da tua cabeça,
não serás astro sobre mim.
Jamais poderia voltar
ao Portugal dos Pequeninos,
compreendo a mecânica: olá, olá à
¡Holla! atrás das portas:
a política alimentícia do lugar à mesa
sempre gerou a fome
e a ditadura dos lugares.
E nada disso me interessa.
Durmo a noite e não sei do Migraleve.
Só os sóis iluminam e os seus rastos de sombra
cavam a escuridão fria do espaço:
se uma erva cresce é porque a Voz
lhe canta ao ouvido, cresce, cresce.

There is no blade of grass that does not have a constellation – Mazal over it, ha-makeh bo, telling it to grow. Midrash, Zohar

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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14 respostas a Cantas-me ao ouvido

  1. adelia riès diz:

    🙂

  2. Paula Santos diz:

    E a Eugénia escreve-nos ao coração. Tão bonito! Obrigada 🙂

  3. manuel diz:

    Bonito poema! Bom ano 2015 para a Eugenia com muito sucesso e amor!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Não sei que altura tinha, quando estava atrás da porta. Mas de certeza que se fartou de crescer, Eugénia. Está de um tamanho poético.

  5. A. diz:

    Maravilhoso! Como sempre. 🙂

    “Um bom poema é aquele que nos dá a impressão
    de que está lendo a gente … e não a gente a ele!” (Mario Quintana)

  6. Aos carros, canta-se-lhes ao chassi – lugar com algum chá, presume-se – anda, anda, anda… como uns Lázaros num parking lot de Betânia (num período de rodagem será mais aconselhado as moças da banda Volkana: em vez da Maria… Bethânia):

  7. Mario diz:

    Não percebo se o texto tem uma dimensão mais religiosa ou esoterica..em todo o caso e sempre bom ter alguém que nos diga coisas ao ouvido.

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