Correspondência Interrompida (3)

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Querido T.

Escrevo-te da varanda da frente da casa, estendida sobre o campo e a serra ao fundo, quando o céu se ilumina com a luz deitada do fim da tarde em rabiscos de cor que parecem imutáveis mesmo sabendo que irão desaparecer, como tudo provavelmente, daqui por instantes. Poder olhar o mundo um pouco de cima, como se este existisse para além do horizonte, transforma o olhar, ensina-o. Como o escrever nos obriga a parar no pensamento que assola, irrequieto, na saudade de já não estares aqui.

Espero que esta carta te encontre antes de já teres partido. Não será na procura dos nossos sonhos que está a nossa ansiedade, mas sim no achar que os vamos realizar. Não somos donos desse caminho. Não encontrarás algo de muito novo se decidires ir embora, por mais uma vez. Tudo o que existe nesse futuro imaginado, utopia brilhante, já te tocou no passado. Neste momento  foges de ti e de nada mais.

Olha, agora aqui, a luz da tarde, difusa num céu que se tornou mais escuro e cinzento, transforma a paisagem numa cena a preto e branco, onde nem as árvores têm cor.

Provavelmente sentes saudades do verde ofuscante do verão, quando o calor obrigava a mergulhar as mãos na água límpida e fresca do tanque. Ou a chorar a beleza da vida que era tanto amor, a rocha dura que cortava os pés descalços, o corpo nu sobre os fetos húmidos e bem cheirosos onde nos deitávamos.

Também eu tenho saudades desse céu e dessa montanha tapada de verde, os bandos negros de pássaros no começo do dia quando o mundo só existia para nós.

Mas o meu pensamento vai apenas para te tentar convencer a ficares. Não te vás embora! Não fujas. De ti. De mim. De nós.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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11 respostas a Correspondência Interrompida (3)

  1. Brito da Selva diz:

    Como a bela prosa não será mesmo dela, mas sonhada, aqui fica dela a imagem, muito bela, toda dela, em homen agem

    http://fotos.sapo.pt/ammalmeida33/fotos/?uid=FpO33JmLge0mYT3VLo3y#grande

  2. riVta diz:

    Hoje na missa de corpo presente pensava: Se soubesses quantos sentem a tua falta, se calhar, não tinhas partido… Não sei quem é o teu T mas talvez ele me ouça, quem sabe, um bocadinho.

    • nanovp diz:

      Há sempre alguém a ouvir o nosso pensamento Rita, e quem se vai sabe que deixa saudades e que faz falta… muitos têm mesmo de ir, outros vão sem saberem porquê….

  3. Beatriz Santos diz:

    Um abraço ao T. Porque merece.

  4. EV diz:

    O pior é saber das cartas que deixámos por escrever…

  5. nanovp diz:

    Pois… ás vezes o melhor é a fogueira….

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