Dos arquitectos

 

vitrúvio

Dou-me por vezes a escritos que não escoro com o bom-senso: trago hoje o De architectura de Vitrúvio. Obra inesperada nas minhas mãos, hão de dizer-me, mas já explico. O que tenho aqui ao lado é a primeira tradução portuguesa a partir do original latino. Feita por Justino Maciel, professor na Universidade Nova da Lisboa e investigador na história da arte e da arquitectura da Antiguidade. E da cultura também porque esse saber está bem patente ao longo da primorosa tradução editada pelo  Instituto Superior técnico (IST Press) em 2006.

Se quisermos ser precisos é a primeira tradução integral para português feita a partir do original latino mas a coisa tem antecedentes:  D. João III terá incumbido, 1520 mais ano menos ano, o matemático Pedro Nunes de traduzir os Vitrvvii  de architectura decem librii mas a obra nunca foi acabada. Houve, sim, posteriores versões, italianas, francesas, castelhanas do texto vitruviano ( e uma inglesa mais tardia) que, a par de tratados que o tinham como matriz, formaram a cultura arquitectónica europeia  desde do séc.  XVI.

Vitrúvio, quem era? Assim ao de leve: em primeiro lugar um engenheiro militar que acompanhou César na campanha da Gália. Essa formação de base, por assim dizer, explica a linguagem pragmática e objectiva do tratado, a que não  é alheia alguma poesia que o Professor Justino  Maciel bem nota.  Enquanto Virgílio e Horácio estiveram mais próximos do círculo de Mecenas, Vitrúvio estava ligado a Agripa em quem Augusto delegou o embelezamento da Urbe. A ordenação da ruas e as construções. Um arquitecto dirão. Pois. Eu sei  o que é um arquitecto. Já vi alguns. Lembrou-me até de um que deixou cair uma rotring que rolou para junto do meu sapatinho. Apanhei-a e devolvi-lha. Ele esquissou um sorriso de bela curvatura e eu senti-me ricamente recompensada. Poderia até dizer que entre a largura dos ombros dele e amplitude do sorriso havia uma proporção perfeita. Já estou a perder-me. Vou voltar ao que queria: ao conceito de arquitecto.

Há uma coisa que sempre foi clara para mim: a primeira marca de civilização é a organização do espaço urbano. O traçado das ruas, as construções que o demarcam. Mas o arquitecto, quando começa ele a ter essa designação, antes ainda, essa singularidade que o distingue entre os demais trabalhadores manuais lá no meio do barulho da pedra a ser partida, do pó, das gruas, das alavancas? Falo da pura questão da historicidade da palavra. Das pirâmides egípcias aos templos gregos e depois aos edifícios romanos embebidos de inspiração helénica , haveria aqui pano para muitas mangas. De alguma forma, e no que respeita a Vitrúvio, ele pertencia à classe dos apparitores. Funcionários públicos com poder, ainda que subalterno e que se espraiava por diversos ramos. Ora, um destes ramos era o dos scribae armamenti, lá está, os engenheiros militares, e dos architecti, embora o temo pudesse ter uma carga semântica diversa da actual. Influentes, porque culturalmente distintos e de saber respeitado, um saber que continuamente aumentava no exercício da própria profissão.

Mas estas minhas questões sobre a historicidade do termo não ficam por aqui. Se acreditarmos em Leonardo Benevolo,  Brunelleschi é já um arquitecto, aliás  devemos-lhe “a invenção da arquitectura renascentista”.

Então, e o mestre-construtor gótico não era ainda um arquitecto?

Bem, rest my case. Vão abrindo esta magnífica tradução, sempre que tiveram tempo. São 399 páginas seguidas de belíssimos desenhos. Quando derem por isso, está tudo lido. E desculpem qualquer coisinha.

 colunas

Vitrúvio, Tratado de Arquitectura

Tradução do latim, introdução e notas de M.  Justino Maciel

IST Press, Lisboa, 2006 (1ªed.)

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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6 respostas a Dos arquitectos

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Olhe que bom, belo livro, em harmonia com a sua apresentação. Ainda bem que temos o Está Escrito.

  2. Beatriz Santos diz:

    Desconhecia a época em que tinha vivido Vitrúvio. Aprendi. Julgo que.

    • A sério? Séc. I a.C., o denominado “século de Augusto”.
      Pensa-se que a entrega do tratado ao Imperador terá ocorrido até 20 a.C. É preciso ter em conta que Octávio só recebeu o título de “Augustus” em 27 a. C. e que Vitrúvio nunca o trata como tal, apenas como “Imperator”
      Bem, e a morte de Vitrúvio ocorreu em 25 a. C. Não esquecer que as datas a. C. se contam “a diminuir”. Quanto menores, mais perto de nós.

  3. nanovp diz:

    Um “bíblia” Ivone. Característica civilizacional, o de deixar escrito ou catalogado o caminho da História , é aqui elevada ao puro desenho e a à pura geometria. serviu de base a tudo o que veio depois, tratados renascentistas, do século dezoito e até do modernismo…e claro que nessa altura arquitectura e urbanismo ( cidade) era uma só coisa.

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