É chinês, mas esteve para ser sânscrito

 

 

Nas últi­mas sema­nas,
alguns dos meus sobri­nhos não pude­ram escre­ver o Está Escrito. Cheia de pena — logo eu que tanto quero que eles me digam que livros é que é Triste ler — lembrei-me, e por saber que na minha pena com penas eles se dei­tam, de ima­gi­nar um livro que, Escrito, pode­ria ter sido o Está Escrito de cada um deles.

Um Está Escrito para o Vasco Grilo

Chinese

Neste nosso Escrever é Triste, não há ninguém tão cosmopolita, tão globetrotter, como o meu sobrinho Vasco. Quando, agora, não escreveu o Está Escrito dele, fiquei danada. Ele tem para me dar o que mais ninguém me dá, o olhar estrangeiro, gestos, olhares, comportamentos que – e venham cá dizer-me que é tudo globalização que eu ainda faço um crime – são radicalmente diferentes.

É por isso que, a pensar nele, fui buscar esta antologia de poesia chinesa – uma de poesia do sânscrito chegou a ser outra hipótese. Chama-se “The Penguin Book of Chinese Verse” e foi publicado pela primeira vez em 1962. Esta versão que tenho na mão, e os Tristes leitores na fotografia, é de 1971. Custava então 25,50 escudos, na livraria 111 do Campo Grande.

Os versos chineses foram traduzidos para inglês por Robert Kotewall e Norman L. Smith. Um especialista da China, o professor A.R. Davis, escreveu a apresentação. É um velho livro, perplexo perante o que era, então, o insondável mundo chinês. Nas suas 86 páginas valorizava-se o que, à época, revolucionária e socialista, nenhum chinês parecia valorizar. A China terçava pelo colectivo e erguia-se em emulação patriótica. Neste “Book of Chinese Verse” tudo o que os tradutores queriam encontrar era a “expressão íntima de sentimentos pessoais”.

Nem sei se o Vasco é ou não um grande amante de Li Po ou Tu Fu, dois dos maiores, ambos representante da poesia shih, um boémio e irreverente (Li Po) e o outro (Tu Fu) chamado a poeta oficial. Na soma dos dois, estão ou não todas as nossas mais fundas angústias?

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Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.

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4 respostas a É chinês, mas esteve para ser sânscrito

  1. EV diz:

    A 111 era uma das minhas grutas de Ali Bábá. Fui lá muito feliz a sonhar que aqueles montes de livros eram meus.

  2. nanovp diz:

    Tão Chinês e tão bonito….e tudo por 25 escudos…

    • Escrever é Triste diz:

      Um dinheirão, ao tempo. Valia dois jantares num chinês desse tempo, com lycheas e tudo.

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