I could have been someone

Especial NatalFairytalk-of-new-york

 

Fairytale of New York é a minha canção de Natal favorita. Minha e de muita gente. Foi votada a melhor canção de Natal de todos os tempos por ingleses e americanos que, obviamente, são destes tempos e não de outros; mas é compreensível. A canção é um tratado. A música é um tratado de sentimento e alegria como só os irlandeses sabem escrever, capaz de fazer dançar um morto, a morte, a viuva e os enlutados. Se um imagem, diz-se, vale mil palavras, uma música como esta vale milhões. A letra é um tratado de como escrever uma história. Lê-se, ouve-se e pensa-se: para que raio escrever livros e textos compridos se tudo pode ser dito em tão pouco tempo e com tão poucas palavras; mesmo uma história. A letra não é um poema, é um romance. Um romance sobre um bêbado e uma agarrada que se conhecem numa fria noite de Natal em Nova Iorque. É uma história que começa contada em flashback pelo protagonista, apresentado logo no verso inicial da música, atirado que foi para o tanque dos bêbados. Aí, ao ouvir uma velha música irlandesa, cantada por outro bêbado, recorda o dia de Natal em que a conheceu.

Fairytale of New York é um romance com princípio, meio, fim, diálogos e tudo. A apresentação do lugar, do tempo e da relação entre os dois é tão económica e brilhante que chega a comover-me de inveja:

“They’ve got cars big as bars, they’ve got rivers of gold, but the wind goes right through you, it’s no place for the old. When you first took my hand on a cold Christmas Eve you promised me Broadway was waiting for me.”

As duas primeiras estrofes do refrão são sobre o tempo do começo, sobre a felicidade que só existe no princípio das coisas, quando o coração bate alimentado pela adrenalina da paixão. As duas últimas estrofes são sobre o depois: namorado e namorada, bêbado e agarrada, são sobre a vidinha que, ainda assim, é cheia de ternura. Uma ternura já não alimentada a adrenalina, mas a álcool e heroína. O último verso é a coisa mais densamente negra alguma vez ouvida numa canção de Natal:

“… Happy Christmas your arse I pray God it’s our last” — Feliz Natal sua besta, peço a Deus que seja desta — atrevo-me a traduzir.

Depois, pegando na melodia de abertura, para fechar tudo redondamente, vem o fim. O fim de tudo. O fim dos sonhos. Os sonhos roubados, os sonhos não concretizados, os sonhos que enleamos nos sonhos dos outros até estragar os nossos e os deles e delas; mas o mundo, nesta canção, representado pelos rapazes do coro da NYPD a cantar Galway Bay enquanto os sinos tocam pelo Natal, continua, indiferente a eles e aos sonhos.

Este ano de 2014 não foi um bom ano para os meus sonhos, não se deram bem, não cresceram. Vá lá saber-se porquê. Mas não me posso queixar. Houve outros anos de bons e concretizados sonhos, mais do que, se calhar, seria a minha conta. Todos os anos, por esta altura, oiço, toco e canto Fairytale of New York; emociono-me, primeiro e depois acalmo-me, e desapego-me dos sonhos que sonhei durante o ano. Deixo-os partir. Lá para Janeiro sonharei outros. Talvez até recicle alguns dos mais antigos. Mas só em 2015. Agora vou comer e beber, e ouvir outra vez os Pogues, a Kirsty MacColl e o bêbado.

Bom Natal you scumbags, you maggots, you cheap lousy faggots, Happy Christmas your arses.

It was Christmas Eve babe
In the drunk tank
An old man said to me, won’t see another one
And then he sang a song
The Rare Old Mountain Dew
I turned my face away
And dreamed about you

Got on a lucky one
Came in eighteen to one
I’ve got a feeling
This year’s for me and you
So happy Christmas
I love you baby
I can see a better time
When all our dreams come true

(Duet)
They’ve got cars big as bars
They’ve got rivers of gold
But the wind goes right through you
It’s no place for the old
When you first took my hand
On a cold Christmas Eve
You promised me
Broadway was waiting for me

You were handsome
You were pretty
Queen of New York City
When the band finished playing
They howled out for more
Sinatra was swinging,
All the drunks they were singing
We kissed on a corner
Then danced through the night

The boys of the NYPD choir
Were singing “Galway Bay”
And the bells were ringing out
For Christmas day

You’re a bum
You’re a punk
You’re an old slut on junk
Lying there almost dead on a drip in that bed
You scumbag, you maggot
You cheap lousy faggot
Happy Christmas your arse
I pray God it’s our last

The boys of the NYPD choir
Still singing “Galway Bay”
And the bells were ringing out
For Christmas day

I could have been someone
Well so could anyone
You took my dreams from me
When I first found you
I kept them with me babe
I put them with my own
Can’t make it all alone
I’ve built my dreams around you

The boys of the NYPD choir
Still singing “Galway Bay”
And the bells are ringing out
For Christmas day

Songwriters: JEREMY FINER, SHANE MACGOWAN

 

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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9 respostas a I could have been someone

  1. Bruto da Silva diz:

    So Good… So Far…

    Great!

  2. EV diz:

    Gostei muito, Pedro.

    Se lá para Janeiro quando lhe der para sonhar outro sonho, resolver sonhar o mesmo, apenas melhor sonhado, “a feli­ci­dade que só existe no prin­cí­pio das coi­sas, quando o cora­ção bate ali­men­tado pela adre­na­lina da pai­xão”, não o vai deixar, nem que fracasse mil vezes e nem quando disser a si próprio “Happy Christ­mas your arse I pray God it’s our last.”

    • Pedro Bidarra diz:

      Sonharei provavelmente o mesmo sonho. Ou uma variante. São sempre variantes do mesmo sonho de felicidade. Beijos, beijos de Natal, Eugénia. Obrigado pelas palavras.

  3. Para aqueles que têm de trabalhar todo o ano:

    Most of the year we are but heathens
    Sailing, fighting, plundering and crushing skulls
    We confess to fight for Odin, we pretend to be his horde
    But when the year draws to an end things get kind of bizarre

    Desejo um bom Natal a todos

    • Pedro Bidarra diz:

      Grande Táxi. Um bom Natal para si e para aqueles que têm de trabalhar todo o ano. E para os que não têm trabalho e apenas sonhos de o ter. Esses, sim, podiam virar Vikings, navegar, lutar. pilhar e partir algumas cabeças. Já que não têm o que fazer.

  4. riVta diz:

    Como pode ser triste e bonito o que escreveste.
    bj de Bom Natal

  5. nanovp diz:

    Calha bem Pedro, muito bem , depois de uma grande merda de ano…. .”I could have been some­one Well so could anyone”…So tough luck, and let’s get drunk for the year to come….

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