Jorge de Sena: dez filmes para uma ilha deserta

Este sim, já era um livro. Fui o editor dele na Cinemateca, em 1988.
Seria o meu primeiro Jorge de Sena. Ainda não sabia,
mas havia mais à minha espera.

mas que raio de editor sou eu?
capítulo 5

capa

Foi uma missão que o João Bénard me confiou. Um dia, mostrou-me uma pequena montanha de papéis nos arquivos da Cinemateca. Era o espólio do JUBA, o Jardim Universitário de Belas-Artes, um centro fundado pelo pintor Guilherme Filipe, no final dos anos 40. O JUBA organizava variadas manifestações culturais, abarcando a literatura, a poesia, a pintura e o cinema. No cinema, a jóia da coroa eram as Terças-Feiras Clássicas, consistindo na exibição de filmes, precedida por uma apresentação crítica da autoria de personalidades públicas e figuras da cultura. A primeira sessão foi em Março de 1949, a última lá para meio de 1955. Eram lanças nos pés do regime. Se bem se lembram mal se podia abrir o bico e se se abria não era para piar.

Nessas sessões, no cinema Tivoli, falaram, entre outros, Vitorino Nemésio, João Gaspar Simões, o filósofo Vieira de Almeida, Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena, um dos que mais vezes foi convidado. O João mandou-me ler e estudar esses textos, para futura publicação, dizendo-me que havia, entre eles, mais variações de qualidade do que hoje nas variações climatéricas. E, sabendo do que eu gostava, acrescentou: “A bem dizer, nem chamo ao que vai fazer trabalho, já que boa parte é do Sena. Já viu a sua sorte.”

Li tudo (ou quase tudo?) e pedi a Deus Nosso Senhor que me recebesse. Ouviu-me. Propus-lhe que em vez de um ou dois volumes com tudo ao molho e fé sabe-se lá em quê, fizéssemos livros de autor. Era o que ele queria ouvir. Nem precisou de dizer sim. Só disse: “E?” Ao que eu sugeri, se ele não se importasse, começarmos pelo Jorge de Sena. Era o que ele chamava “missão cumprida”.

Reuni as prelecções que Sena fizera no Tivoli, recuperei os cortes que a Censura do Senhor Professor Salazar lhe fez e, depois, aproveitando a viagem a Los Angeles por causa do Coppola, fui a Santa Barbara visitar a Dona Mécia de Sena, que me deu a sua benção e ajudou a descobrir mais meia-dúzia de textos, alguns que Sena escrevera como, se assim se pode dizer, “crítico de cinema”, outros que eram palestras em cine-clubes e, por fim, uma escolha dos dez filmes que Sena levaria para uma ilha deserta e a que já voltaremos.

Sena

Eu estava habituado a fazer catálogos – objectos grandes, de capa dura e coisa e tal – mas neste caso decidi fazer um livro. O Luís Miguel Castro, que era mesmo il miglior fabbro, apareceu-me com uma ideia gráfica de que gostei muito e de que, 36 anos depois, ainda gosto mais.O Luis Miguel concebeu uma cercadura que replicou em todas as páginas do livro, “emoldurando” os textos de Sena e as fotos dos filmes referidos. Não quero jurar, mas fizemos uns 5 mil exemplares do livro e, se bem sei, a edição está esgotadíssima.

Luís de Pina e João Bénard, assinaram a nota de agradecimento, eu escrevi uma explicadinha e combativa nota prévia e a Dona Mécia de Sena, que podem ver ali em cima, na foto pequenina, com o seu Sena tão amado, escreveu a introdução. O livrinho é um dos meus motivos de orgulho e prazer editorial. Tem todos os textos de cinema de Jorge de Sena, tudo certinho, com os cortes da censura assinalados, as notinhas bibliográficas, o índice remissivo. Fiz como o João Bénard teria feito, evitando todo e qualquer motivo de raspanete da Dona Mécia, que me ensinou o b-a-ba das edições senianas, ajudado pela moderníssima criatividade do Luis Miguel. E se chegaram até aqui, bem merecem saber quais eram os filmes que Jorge de Sena, o Jorge de Sena de “Sinais de Fogo” e “As Evidências”, levaria para uma ilha deserta.

Garbo

Os 10 filmes para uma ilha deserta
de Jorge de Sena 

Citizen Kane, Orson Welles
Les Enfants du Paradis, Marcel Carné
Limelight, Charlie Chaplin
The Quiet Man, John Ford
Umberto D, Vittorio de Sica
Rocco i sui Fratelli, Luchino Visconti
Otto e Mezzo, Federico Fellini
Zorba, the Greek, Michael Cacoyannis
Blow-up, Michelangelo Antonioni
Persona, Ingmar Bergman

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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17 respostas a Jorge de Sena: dez filmes para uma ilha deserta

  1. EV diz:

    Gostei tanto de ouvir a história deste livro. E olhe, quando lhe rapinar, perdão, o aliviar do peso das antologias, trago este de bónus que o Sena é um dos homens da minha vida.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Este está esgotado, mas anda por aí muito livro nos alfarrábios e nem deve ser caro. Digo eu. Mas já vejo que lhe foge a mão para a estante…

  2. adelia riès diz:

    Waou waou waou!!! Vejo que tem mesmo jeitinho. Quanto aos filmes, vi-os todos 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Adélia, só sei que já ando nisto há algum tempo. Como aliás se vê. Apeteceu-me fazer essa viagem. É uma espécie de auto-gratificação… self-indulgence, as they say.

      • adelia riès diz:

        Espero que ainda ande por ca mais algum para podermos viajar na sua boa (?) companhia.
        HAPPPY NEW YEAR !!!

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Eu não sou flor que se cheire, nem companhia que se recomende ***, mas desejo-lhe também très bonne nouvelle année.

          *** vá lá, exageros…

  3. São filmes que se veem dentro da caverna de Platão, filmes mansinhos, nada que provoque reformas estruturais. Cada ano que passa fico mais desagradado com este Jorge de Sena, ainda bem que Bocage não ia ao cinema. Um bom filme para levar para uma ilha povoada seria, talvez, “400 Golpes”, por roubarem cartazes do Bergman, mas o mais óbvio seria “I Am Curious”

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Eu dou-te as reformas estruturais, Táxi.

      • Este filme, “I Am Curious”, é do tempo em que havia pessoas engajadas, palavra muito em moda em certa época e que desapareceu. Com certeza que viste a continuação dele no Quarteto em 81, se não viste este, deves vê-lo, nem que seja pela Lena, infelizmente já falecida, uma mulher normal, baixa, gorducha e bonita, não como essas fantasias que Hollywood nos vende a nós, os subdesenvolvidos.

  4. Estou farto de pensar, que raio de filmes levar para uma ilha deserta? excetuando o “Hotel”, para não esquecer os confortos da civilização e porque tem a quiduxa Catherine Spaak, só encontro um “Emanuelle and the Last Cannibals” (para não esquecer que we are not alone)

    http://www.dailymotion.com/video/xcghyg_emanuelle-and-the-last-cannibals-tr_redband

  5. Luis Lopes diz:

    Só não iria ver o do Senhor Bergman

  6. Ana diz:

    Tenho a sorte de ter um dos 5000 exemplares. Maravilha de edição, textos todos de visionário, de vidente, de olha-tudo. Muito obrigada.

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