Let there be light, menina Jordy Fu, let there be love

LET THERE BE LOVE

Durante muito tempo pensei que a vida era sólida. Não é que estivesse completamente errada: apenas não estava certa.

Durante esse tempo acreditei, por exemplo, que o passado cabia dentro das portas da casa da infância. Dessa forma far-se-ia presente se varresse os antiquários, se encostasse todo o peso de meia-cómoda D. José em pau santo a uma parede, agarraria por junto com o rocaille do bronze das ferragens os meus exactos quatro felizes anos a patinar as botas ortopédicas na cera do corredor.

Durante esse mesmo tempo, outro exemplo, tenho ideia de que as instituições eram igualmente densas: o casamento era um contrato civil e religioso e Cristo estava na cruz, a política um dos mais nobres dos serviços públicos. Um mundo denso.

Durou muito tempo este tempo. Escrever, neste tempo, era pouco mais do que uma vergonha, uma falta de seriedade, ou na melhor das hipóteses, uma falha, um fracasso, uma perturbação tanto da educação quanto da personalidade. Dois erros, portanto. Já ler, haja paradoxo, era construir uma biblioteca e plasmá-la pelas paredes em altura e comprimento e acrescentar pensamento. Duas virtudes, pasme-se.

Durante muito tempo pareceu-me que os anos se construíam não apenas com os dias mas com os objectivos de curto, médio e longo prazo.

Quem diz isto por exemplo, diz tudo.

Jordy Fu iii

A luz fez muito por mim. E quando digo luz, sendo reconhecidamente de base sólida, digo o que nos ilumina, desde o sol, em amarelo papel cenário pendurado lá no alto do palco do céu, até aos candeeiros. Já escrevi sobre Ingo Maurer. Sobre Jordy Fu ainda não tinha dito nada – sou egoísta, quero aquilo de que gosto muito só para mim.

Jordy Fu

Jordy Fu pega em papel reciclado e corta-o e recorta-o à mão livre, assim, direitinho numa folha. Depois molda-o e dá-lhe luz. Uma coisa que lhe veio do gosto pelo desenho, de pequena, do design, e das maquetes do curso de arquitectura. Uma coisa que fica assim no espaço entre o desenho, o design, a arquitectura. E também entre a tradição chinesa do uso papel no papel feminino, lugar onde se regista e guarda um recorte de memória feliz, e a emoção, e o conto e o sonho.

Jordy Fu ii

Não creio que o mundo seja assim tão sólido.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Let there be light, menina Jordy Fu, let there be love

  1. Beatriz Santos diz:

    E eu creio que é sólido, mas não seja tão só da sua solidez que vivemos.

    Obrigada por Jordi Fu, a foto final é mesmo sonho.

  2. riVta diz:

    Não conhecia fiquei a conhecer. Boa!

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