Meditação sobre Ulisses em manhã de domingo

Por vezes, nos dias em que há Sol e não me perguntem porquê, penso em Ulisses em Ítaca depois de assentada a poeira. Em como se terá entediado e aborrecido. Já escrevi não sei onde que, de entre os heróis épicos, Ulisses é-me o mais próximo. Assim uma forma de primo, sem segredos nem mistérios. Vejo-o claramente, enrolado num tecido áspero, a olhar o pélago cor de jacinto e enfadado de morte. Sempre supus que 3/4 da alma dele eram viagem. A chegada apenas uma pausa para o descanso. O pretexto de Tróia deve ter-lhe sabido a ginjas porque era partir e aventurar-se e falar em frente à assembleia dos homens. E ter espaço para mostrar em concreto a sua métis, a astuciosa inteligência ulissiana. Quando, na praia dos Feaces, diz a Nausícaa: “seguiam-me mais de mil homens pelo caminho que havia de ser o da minha perdição” não está apenas, subtilmente, a dar conta da sua importância mas também a evocar aquilo que lhe é caro, o caminho que pode ser o da perdição mas que tem de ser percorrido. É claro que Ogígia foi uma pausa demorada. Sejamos compreensivos: Ulisses devia ser muito bom na cama e Calipso não foi de modas, anda cá que és meu. Mas era divina, coitada, e ainda ninguém se deu ao trabalho de explicar às imortais que se empurra um homem da cama antes que ele se enfastie. Mas não é por aí que quero ir. É por Ítaca, depois da calma, depois de arrancados os machados do chão do mégaron, depois de duas noites dormidas na cama talhada no tronco da oliveira. Ulisses bocejou, poria as minhas mãozinhas no fogo. Ou, então, murmurava muito avant la lettre enquanto percorria os caminhos da ilha:
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz! 
E devia apanhar uma pedra para a lançar à água e ficar a vê-la tracejar à superfície, um desejo de partida a subir-lhe pelo corpo todo. Pobre Ulisses em Ítaca, meu primo, meu amigo.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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8 respostas a Meditação sobre Ulisses em manhã de domingo

  1. caruma diz:

    Caros Tristes, que se passa – a burrice é minha ou é da tecnologia ? Não consigo partilhar no facebook . E isto é novidade, há já dois ou três dos vossos posts . Pergunto: que fazer ? Guardar só para mim ? Acho mal.

    • Escrever é Triste diz:

      Em princípio, Caruma, para partilhar basta clicar com o botão da esquerda do rato sobre o ícone do facebook acima. Abre-se uma janela e é só escrever o que quiser e partilhar a seguir…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Pensando bem, Ivone, todos os dias de Penélope eram domingos.

  3. Beatriz Santos diz:

    Segundo Platão, a alma de Ulisses escolheu ser cisne na vida seguinte. Enfadado de tanta viagem e peripécia. Cansado, enfim. De acordo com a história, chegou tarde a Ítaca. Velho. Nessa idade, o desejo de viagens é mais sonho-sonho, desejo nostálgico, que sonho a concretizar.

    Este é o meu Ulisses: E não vejo razão para que não haja inúmeros, de acordo com o que o imaginário projecte. A chegada a Ítaca é o seu ponto final parágrafo.

  4. nanovp diz:

    O que mais surpreende é a imortalidade das ideias…e a história ca(o)ntada assim faz-nos chorar por mais Ivone !

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