Minha boca doce

Esta é uma breve, inútil e a-científica evocação da minha infância africana. Mas é doce. Dulcíssima. Uma carga de açúcar de alto lá com ele.

pirolito, isabel moreira

Bem sei que não querem saber, mas quero eu dizer-vos que coisas da minha infância  me fizeram a boca doce. Primeiro, pirulitos iguaizinhos a este (e pirulitos com “u” e não como “o”, como primeiro escrevi e agora corrijo). Um pirulito, deixem-me explicar, é uma armadilha cónica para se aprisionar o açúcar, sumptuárias quantidades de açúcar, em rigorosas e impenetráveis paredes de água. É ou parece ser um cone sólido. Seria preciso um martelo para o partir, basta uma lânguida e inocente língua para que se derreta.

paracuca, isabel moreira

Nas  ruas de Luanda, quando vínhamos da escola, dos meus capuchinhos da Missão de São Paulo, os vendedores tentavam-nos com os cartuchos de paracuca que estão a ver aqui em cima. Paracuca pode fazer-se em casa. É só comprarem jinguba não-torrada, no seu estado natural. Atirem-na depois para dentro de uma panela onde já estejam dois generosos copos de água a ferver com quase meio quilo de açúcar (se é para ficar doce, é para ficar doce), mexam sem parar com colher de pau e quando sentirem que está no ponto, a jinguba bem solta, espalhem num tabuleiro e deixem arrefecer, soltando a jinguba, que é como quem diz, os amendoins. A seguir coma-se durante horas, uma tarde inteira de melosa preguiça.

kifufutila

O outro festival de doçura, verdadeiro topo da cadeia alimentar, o que é mesmo bom, mel em pó, êxtase ambrosíaco, exige trabalho. O que estão a ver na foto – e que sabe três mil vezes melhor do que fotografa – é a kifufutila. Mistura de farinha, açucar e jinguba  (amendoins, meus amigos, amendoins) torrada. Se está em pó – e obrigado, bom Deus, por este pó -, é porque uma avó, uma tia, de pilão na mão, bateu tudo na vasilha de madeira até ficar assim, caprichosamente tentadora, saborosa, comestível à colher, à mão, no cartucho que se eleva e deixa escorregar esta poalha dourada, restos de galáxia antiquíssima, para a boca gulosa. Kifufutila, minha boca doce.

As fotos de pirulitos, paracuca e kifufutila
gamei-as, com a devida vénia, a Isabel Moreira, que as publicou numa daquelas maravilhosamente nostálgicas comunidades facebukianas de angolanos, ex-angolanos, futuros angolanos, e eternamente angolanos, que já calculam. Gente de boca doce. 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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24 respostas a Minha boca doce

  1. Célia diz:

    Esse cone doce envolto em papel é um pirulito. Diferente de pirolito, bebida gasosa que vinha numa garrafa que tinha uma espécie de berlinde no gargalo.

  2. Carla L. diz:

    Minha vó, uma legítima Cunha, atravessou os mares quando não era ainda nem projeto.
    Nasceu, cresceu e morreu aqui.De alguma forma seus ancestrais tiveram contato com com esta culinária.
    Nos aniversários das crianças, até a minha geração, não podiam faltar os “pirulitos”, que mais modernamente eram envolvidos com papel transparente, mas o formato era igualzinho.
    Sempre que ela voltava da sua visita anual à fazenda aonde nasceu, na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, trazia montes de amendoins e preparava “paçoca de colher” para toda a família, exatamente deste jeitinho: amendoim torrado, açucar, farinha de mandioca e uma pitada de sal.
    Voltei no tempo, Manel.
    Obrigada!

  3. Tal e qual o Brasil! Ainda me lembro, quando pequeno, ter lido num onibus está frase, que não entendi na época: “Amor é como pirulito, começa no doce e termina num palito” (sic).

  4. Fatima MP diz:

    Como eu adorava esses pirulitos! E como eles se dissolviam na boca docemente e tudo ficava doce, a boca, o coração, a escola, a vida, o mundo. Grande invenção, os pirulitos! , Suspeito que à conta deles, ainda hoje continuo visitando o dentista com frequência … será??

  5. Maracujá diz:

    MSF desfiar lembranças tem riscos, ainda vira escritor famoso (lol)! Mais uma: e dizer kifufutila, enquanto se come kifufutila? Maldades de criança!

  6. riVta diz:

    e eu que fiz 280km apertadinha num carro a dizer à minha linda sobrinha que açúcar é veneno!

  7. EV diz:

    Que post guloso! Já tinha comido paçoca na canção dos Doze Anos do Chico Buarque, mas não sabia ao que sabia nem como era… Pirulitos, sim, tão bom! Agora paracuca não conhecia nem a palavra.

  8. Beatriz Santos diz:

    estava-me a apetecer uma coisa doce mas não precisava ser tão.

  9. nanovp diz:

    Só Doçura na tua infância Manuel, ou na memória dela….apeteceu-me provar todas…

  10. Teresa Mercês de Mello diz:

    Eu também comi muitos pirulitos e que saudades…

  11. Luisa Sereno diz:

    Oh! Meu Deus! O que eu adorava estes pirulitos, a minha vizinha fazia-os e era uma tentação todos os dias.É uma boa recordação!!.

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