Moralidades. Ouviram bem : Moralidades…

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O formato é o de um Diálogo Platónico. Um grupo de amigos e conhecidos que se encontra em suas casas para discutir o que todos acabam por sentir ser uma “crise de valores” na sociedade onde vivem.

Jane Jacobs ficou talvez mais conhecida pelo seu livro “The Death and Life of Great American Cities”, que viu a luz em 1961 e rebentou como uma enorme bomba atómica sobre o “establishment” modernista da época. O Urbanismo americano nunca mais foi o mesmo depois desta golfada de ar fresco que punha a nu os métodos e os resultados algo desastrosos do urbanismo pós guerra americano.

Jornalista, escritora e activista, nascida no Canadá mas Norte Americana por escolha, Jacobs orientou a sua carreira em diversas áreas, mas sempre com a ideia de que no centro de tudo está o individuo, não a ideologia, não o método. Não a forma mas sim o conteúdo.

“Systems of Survival” lê-se num sopro, mesmo existindo um enorme manancial de conceitos e informação sobre os quais se alicerçam o ficcionado diálogo entre as personagens. Nesse sentido, a secção das notas é de leitura obrigatória,  porque muito do que as personagens descrevem no livro acaba por ter origem em factos reais , alguns dos quais até podemos ter ouvido falar.

Mas então de que é que trata o livro? De Moral, esse conceito, essa palavra que parece ter desaparecido de qualquer discussão pública ou privada. O convite para a discussão é apresentado logo no início do livro por uma das personagens: “to explore breakdowns of honesty”, ou seja, o problema da honestidade no funcionamento geral da sociedade contemporânea, seja ela na esfera publica, ou no universo das empresas privadas, ao nível da sociedade civil ou das instituições publicas do estado e até de organismos não-governamentais.

O que levou Jacobs a escrever o livro em 1992 não será muito diferente daquilo que ainda preocupa muitos de nós, mais de uma década depois: Fraudes financeiras, associações comerciais criminosas, desregulação dos mercados, mas também influência nefasta de governos corruptos, abusos sucessivos de instituições que supostamente deveriam funcionar para defender o bem público.

Claro que nada disto era ou é novo ou original. Interessante, e onde o livro se revela inspirador, é que Jacobs reconstrói uma formulação de dois “síndromas Morais”: O síndroma Comercial e o síndroma Politico ( ou guardião, embora que eu saiba não existe tradução exacta para essa palavra “guardian”). Sem criticar directamente qualquer um deles, Jacobs argumenta que é na colisão entre os dois que reside o problema.

Servindo-se da rigorosa base de investigação já mencionada, a autora consegue-nos convencer que haverá instâncias em que o empreendedorismo pode ser visto com um vício, ou outros em que a honestidade tende a perder para a lealdade.

Defendendo que a criação dos síndromas não é sua mas que apenas os deduziu com base em exemplos práticos, Jacobs consegue sintetizar os comportamentos que definem cada um deles. Deixo apenas alguns (mantenho o texto original para não arriscar deturpações na tradução), que não são necessariamente opostos:

 Numa sociedade que tende a relativizar tudo até à exaustão, parece cada vez mais difícil traçar linhas éticas que possam suster qualquer conceito de Moralidade. Esta análise objectiva, rigorosa mas inteligente, simples no formato mas complexa no conteúdo, afastando-se de opiniões redutoras tão populares,  continua a ser para  uma golfada de ar fresco que sabe sempre bem.

p.s.Para despertar a vossa curiosidade, deixo aqui alguns dos tais comportamentos, (mantenho o texto original para não arriscar deturpações na tradução), que não são necessariamente opostos:

 The Commercial Moral Syndrome   The Guardian Moral Syndrome

Shun Force                                            Shun Trade

Be honest                                                Be obedient and disciplined

Compete                                                  Respect Hierarchy

Respect Contracts                                 Be loyal

Be Industrious                                        Show fortitude

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a Moralidades. Ouviram bem : Moralidades…

  1. Diogo Leote diz:

    Sim senhor, Bernardo, muito boa leitura para as nossas supostas elites que estão na prisão ou a caminho dela.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Bernardo, parece-me um belo livro. Vou à procura.

  3. Beatriz Santos diz:

    Está fixe a lista de valores e seus contrapontos.

  4. EV diz:

    Desconhecia tudo. Não sei se algum dia darei conta da lista sempre crescente dos “para ler”.

  5. Também só a conheci há muito muito pouco tempo. Uma amiga disse-me: Lê, vais gostar.

  6. nanovp diz:

    A mulher é um espanto…no seu ultimo livro (acho eu) Dark Age Ahead, parece ter acertado mais uma vez no que o futuro nos ia trazer….

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