Para 2015: dizer adeus à linguagem e ter um pensamento lateral

Se me deixares, estimado 2105, fica a saber que uma das primeiras coisas que quero fazer, quando tu mandares, é dizer adeus. Quero dizer adeus à linguagem. A linguagem é uma coisa muito complicada.

Sim, é natural que queiras saber porquê. Olha, porque “Ele não conseguiu fazer de nós humildes. Ou não soube, ou não quis.” O que é que Ele fez de nós? “Ele fez de nós, uns humilhados.”  Mal chegues, em Janeiro, vou tirar isto a limpo, neste filme de que deixo a apresentação, se é que um filme do franco-suiço, protestante, menino mimado de oitenta e tal anos, chamado Godard, precisa de apresentação.

A outra coisa que eu quero fazer é deixar de pensar. Não quero pensar. Estou farto de os ouvir pensar dentro da box e de os ouvir clamar que vão pensar out of the box. Foda-se lá para a bosta da box e para o lameiro out of the box.

Se alguém ainda precisar de pensar, sugiro o pensamento lateral. Pensar de lado. Em pé ou deitado, mas de lado. O pensamento lateral contempla e abrange a estúpida curiosidade. O pensamento lateral é divertido – porque um tipo pode pelo menos estar apoiado num dos braços, ou numa das pernas. O pensamento lateral tem sentido de humor. O pensamento lateral não é uma forma de lá chegar (onde quer que um tipo queira chegar), é uma forma de ir andando, ficando parado. A bem dizer, sempre que a ciência chegou a algum lado foi através do pensamento lateral.

Ah, e esquece lá, querido 2015, aquela peregrina ideia de me dares um poço de petróleo. Se me quiseres dar alguma coisa, uma pequena surpresa, um atómo de privilégio, dá-me grafeno, camadas de grafeno. Se os bens tangíveis estão fora de causa, um sopro de beleza e basta. Um sopro de beleza e luz para os meus olhos.

adieu au langage

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

7 respostas a Para 2015: dizer adeus à linguagem e ter um pensamento lateral

  1. EV diz:

    Vinha aqui plasmar una cosita, Manuel Fonseca, mas com esta me vou e logo volto mais tarde: também quero o Godard, que a box se foda e com o grafeno também me governava se as inteligências me o aplicassem. Com o clássico graveto também não ia malzinho… Mas a beleza basta-me.

  2. Jaime Duarte diz:

    Agora entendo porque adormeço todas as noites em “decúbito lateral”. Obrigado pela dica.

    • Não se esqueça de se rir também, Jaime. Não basta estar de lado. Gente a levar-se a sério é o que há mais. Precisamos de gente que se saiba rir.

      • Jaime Duarte diz:

        Acredite que sei- me rir. Sou o único no prédio que desconfio do tapete em forma de cão que a minha vizinha tem à porta. Acho até que ele já me rosnou. Não me levo a sério. Se o fizesse teria que procurar outro tipo de sites, entrar na discussão diária do refeitório e lá se ia a “lateralidade”. Pior de tudo não conseguiria sair do horário das 8 ás 17 que imagine-se é um privilegio.
        Caro Manuel. Acredito que também é homem para não me levar a sério. Um abraço.

  3. nanovp diz:

    Pensar de lado é uma grande ideia , vamos lá a ver se não ta estragam, ainda entra na moda….e o Godard promete….

Os comentários estão fechados.