Quem Ordena no Mítico “Eterno Feminino”?

Tamara de Lempicka (Varsóvia, 16 de maio de 1898 – Cuernavaca, 18 de março de 1980) foi uma notável pintora ‘art déco’ polaca. (“The Sleeping Girl”)

Tamara de Lempicka (Varsóvia, 16 de maio de 1898 – Cuernavaca, 18 de março de 1980) foi uma notável pintora ‘art déco’ polaca. (“The Sleeping Girl”)

“Aqui, que ninguém nos ouve: o mundo torna-se um lugar absolutamente enfadonho se forem as maioritárias fantasias masculinas a defini-lo. Felizmente, as mulheres complicam-no, complexificam-no e intensificam-no – o que é tudo diferente entre si. E, felizmente, nós continuamos primários em algumas coisas. Muito, muito infelizmente parecemos [e somos alguns de nós pelo menos] desesperadamente básicos noutras. O que também é diferente. Se por um lado a atual imagem da mulher é tão absurdamente redutora e imposta pelos [desejos dos] homens, por outro, as mulheres ainda não estruturaram alternativas que sejam sólidas o bastante para se imporem no mesmo campo de batalha: o dos falsos valores de uso, o do mercado, o da publicidade. Ou porque não mandam ainda no mundo, ou porque não é isso que lhes importa. É interior a mudança, interior o sofrimento, o desajuste imaginado entre a imagem desejada e o reflexo no espelho. Interior o desejo que o companheiro preencha lacunas na autoestima. Mas a pressão para corresponder a um certo molde é externa. Esta guerra não tem um fim enquanto continuar desta forma. É necessário subverter o que nos é dado de fora. E esse esforço subversivo só é eficaz se for feito em parceria com os homens. Um mundo governado por gajos com menos estudos, mais burros que elas a decidir que tipo de corpo, que tipo de vida deve ter uma mulher.”

Nota – Texto enviado por um leitor. Vem a propósito do vídeo com desproporcionado êxito da Agência Cut que num minuto exibe como o paradigma da beleza feminina mudou em 100 anos.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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5 respostas a Quem Ordena no Mítico “Eterno Feminino”?

  1. Beatriz Santos diz:

    E esse esforço subversivo só é eficaz se for feito em parceria com os homens. Um mundo governado por gajos com menos estudos, mais burros que elas a decidir que tipo de corpo, que tipo de vida deve ter uma mulher.”

    Não entendi se isto é um desejo ou um status quo. Pode ser do leitor. Ou apenas confusão na minha cabeça.

    Há mulheres que querem mandar e mulheres que não. São definitivamente diferentes dos homens em muitas coisas e semelhantes em bastantes outras. Infelizmente, regra geral, e por muito que afirmem o contrário, vivem mal sem eles como eles não vivem bem sem elas. Não me parece bem que mandem uns nos outros. Mas a vida não me faz caso de pareceres

  2. Maria do Céu Brojo diz:

    Na essência, estamos de acordo. Começarei pelo final do seu proveitoso comentário. Penso estar em causa no texto coisa outra que não apenas mandantes e mandados – a pressão social exercida nos comportamentos de homens e mulheres é facto indesmentível. De acordo com esta linha de pensamento, e trago à colação instituições que condicionam a admissão e progressão na carreira das mulheres por gravidez no horizonte, a economia macro orienta consumos individuais pela predominância e disseminação de imagens femininas normalizadas em cada época. Basta atentar nos ‘spots’ e cartazes publicitários, nos ‘outdoors’ ‘et cetera’ para ser demonstrado como ainda são rígidos os padrões que enquadram as mulheres. No meio disto, o paradigma da beleza segue a onda propagandeada. E o dito “Eterno Feminino” existe? Existindo, quem maioritariamente o faz evoluir? A mulher? _ Duvido.

    • Beatriz Santos diz:

      Ok:) Obrigada pela resposta. Suponho que essa vontade de poder colectiva não possa senão advir da sociedade que elegeu os homens. O facto de se “despromoverem” mulheres pela gravidez é discriminação que, além da admissão dessa relação desigual de poder, a nível empresarial, se preocupa, em excesso com as mais valias imediatas, pondo-as à cabeça das suas prioridades e abdicando se necessário, de qualquer outro princípio. Servimos uma sociedade falsamente igualitária quer em termos de direitos quer de deveres, cujos também dariam bastante que falar. O mundo, para subsistir, e por muito que os homens não queiram admiti-lo, sempre carregou mais nos ombros das mulheres. Os tais seres frágeis e delicados com que os homens gostam, às vezes, de conversar e outras coisas. Quantas gerações teremos de esperar ainda até à mudança das mentalidades…mais morosa que viagem de caracol.

  3. riVta diz:

    Não sei não mas ainda bem que não tenho barba!

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