Tu és como Deus, tu não existes

 

Ela tem os dedos macios, ainda adolescentes. Foi fazer o cartão de cidadão e os sensores são incapazes de lhe ler as impressões digitais. Escreveram na ficha: impressões digitais ilegíveis. Num tempo de obcecada vigilância identitária não são capazes de a reconhecer. A mão dela pode segurar a chave da porta, o segredo de um cofre, a faca de um terrível crime, que não deixará rasto. 

Estávamos a conversar e eu disse-lhe: “Tu és como Deus, tu não existes.”

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a Tu és como Deus, tu não existes

  1. EV diz:

    Fun! Isto dá uma linda short…

  2. Beatriz Santos diz:

    Que mão perigosa a que não deixa registo e ainda assim não é como Deus

  3. Paula Santos diz:

    Muito bonito. Deixou rasto..:-)

  4. Teresa Conceição diz:

    Que bom, Manel. Em poucas linhas um conto inteiro. Conto de aniversário?
    Tem música de palpitante suspense. Inocente, claro.
    Gostei muito.

  5. nanovp diz:

    Coisas boas que parecem não existir ….como a alma não acusa no raio x….

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