Viva a União Soviética

Tinha ido à América. Ainda não tinha virado costas e não é que já tinha a União Soviética à perna! Fartei-me de ver filmes. E de ir a cocktails manhosos. Mas não me levaram a Moscovo. Foi tudo ali no bunker da Embaixada, ao Arco do Cego, a caminho da praça do Chile.

Mas que raio de edi­tor sou eu?
capí­tulo 4

capa sovia

A extraordinária capa: uma dimensão de Rodchenko, um grito à Maiakovski

Sabem como é, são aqueles estertores finais. Gromyko tapava buracos no Soviete Supremo à espera que chegasse esse Godot que se viria a chamar Gorbachov. Nas Embaixadas da Europa livre, o pessoal soviético e diplomático esforçava-se por humanizar. Em Lisboa também: bateram à porta da Cinemateca. E nós, para vermos os Vertov, os telúricos Dovjenko, os Kulechov e Bárnet, daríamos o plácido cu e cinco tostões. Paparíamos a oficialíssima cinematografia dos anos 70 e 80, que o regime se afadigava agora a construir, só para podermos ter cópias lavadas e limpas do glorioso cinema mudo soviético que é  – diga-se – muito maior do que o “Couraçado Potemkine” deixa supor… isto digo eu, que tenho, confesso, uma snobíssima e camponesa reserva a Eisenstein, que tem tanto de genial como de formal e formol.

guardas foice

As guardas foram corridas a foice e martelo

Mas deixemo-nos de andar aqui a depenicar como as galinhas e vamos ao que interessa. O João Bénard mandou-me pôr em sentido e fazer esse ciclo com ele. O ciclo, a que ironicamente (e, por isso, nos chamaram ignorantes, numa altura em que eu ainda não estava habituado) demos o título de CCCS * (ciclo de cinema clássico soviético), aconteceu praticamente em cima dessa glória americana que foi o ciclo Coppola de que já aqui falei. Tinha trabalhado que nem um cão yankee, durante meses, entram-me os comunistas pela cinemateca dentro e lá se foram as férias de 1987. Num misto de alegria e má-vontade aceitei o que o João me mandou aceitar: “… e o Manel faz o catálogo.”  E foi o que fiz. Com o Luís Miguel Castro, que estava num dos seus períodos mais inspirados e sexualmente criativos.

abertura sovietico

Vamos já falar do pantone vemelho

O Luís aparecia-me às 4 da tarde, depois de 12 horas seguidas nas noites de Bairro Alto e Frágil, com a frescura de três dormidas horas e a cabeça ainda nalgum quartinho esconso e casinha de banho sem aquecimento. Atrasou-se tudo. Mas não podíamos falhar, não podíamos deixar mal o nosso Bénard e sobretudo não podíamos fazer má-figura à frente dos sóvias. Tínhamos toneladas de textos para meter no catálogo – os autores eram uns stakhanovistas da prosa – e a coisa ameaçava descambar num livro do tamanho de uma enciclopédia. Foi aí que o Luís me disse: “Damos-lhe com um panfleto gigante, meio Rodchenko, meio Maiakovski.” E propôs-me fazer um livro de 30 cm de largura por 42,5 cm de altura. Era uma coisa impossível de meter onde quer que seja, fosse nas estantes do KGB, fosse numa estante burguesa. Um feroz festim estético, digo-vos eu. Que já ninguém encontra em lado nenhum, a não ser em alfarrábio de categoria e soltando uma notinha de 200 euros (não há muitas por aí!)

miolo

A ideia foi de Nossa Senhora: paginem a 3 colunas

O pior é que o orçamento só dava para 120 páginas. Ora, só do marado Dziga Vertov havia quatro textos. E autores eram 18, para não falar de um dicionário dos velhos e dos novos realizadores. Nestas coisas da Rússia o melhor é rezar a Fátima. E foi num domingo, num atelier da rua da Oliveira ao Carmo, que Nossa Senhora veio em nosso auxílio (os sacanas dos papas polacos só começaram a aparecer mais tarde). Julgo que fui eu que disse ao Luís: “Eh pá, já viste bem o lençol que é cada página? Isto é maior do que o “Expresso”. Paginamos a coisa a três colunas.”

Era básico? O Luís agarrou no básico e fez daquilo tudo um manifesto futurista. Se querem que vos diga, era tanto modernismo a escorrer pelas páginas, que não há, ainda hoje, intelectual de esquerda que não se venha ** a olhar para este catálogo, que então se vendeu, nesse Verão ardente de 1987, na Cinemateca e na Fundação Gulbenkian. Mesmo assim não cabia? Não, não cabia. Pois bem, da página 97 em diante já espalhávamos o texto a 4 colunas. E à página 105, onde cabem 4, cabem 5, foi a 5 colunas  que fizemos o “Quadro sinóptico e comparativo dos principais acontecimentos históricos e culturais dos anos 1917-1948 na URSS e no Mundo“. Mas só o cabrão deste título, diga-se, comeu-nos a página 105 inteirinha. O Luís, imparável, embelezou essa página com um pantone vermelho, pantone vermelho que, depois, em setas, barras, rectângulos, quadrados, molduras, sublinhou, pontuou, rasgou, fechou capa, contra-capa, cada página, numa dinâmica geométrica e incandescente. O pessoal da Embaixada deve ter ficado amarelo. Vieram de comunismo cor-de-rosa e ficaram nos braços com uma bandiera rossa, que mais vermelho não podia haver.

miolo a

A cada página uma bandiera rossa

É o mais ousado, o mais revolucionário, a mais justa e gráfica e visualmente poética homenagem que já alguém fez a uma das mais criativas cinematografias do cinema mudo, a cinematografia soviética, subversiva, idealista, comunista. É o único kino-catálogo que conheço. Concebido e feito pelo Luís Miguel Castro. Com a mão operária do Serrano e impresso nas Oficinas Gráficas Telles da Silva. Maravilha de livro: verdadeiro editor era a Cinemateca de João Bénard e Luis de Pina, que fazia livros destes, digo eu, agora, roído de inveja.

plano de capa

olhem bem para este catálogo – capa e contracapa – aberto

* Jogando com o CCCP que era a conversão alfabética do cirílico  Союз Советских Социалистических Республик (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). 

** Pões-te com merdas destas e depois admiras-te que não te convidem para coisinhas educadas, a celofane e papel vegetal. É que nem era preciso.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Viva a União Soviética

  1. Beatriz Santos diz:

    A história do aparecer de alguma coisa, se bem contada, é sempre boa de ler. Do ciclo de cinema soviético. Ou.

  2. EV diz:

    Celofane e papel vegetal está muito bem, mas escrever de língua solta é um gosto para quem lê. Agora 200 euros vezes 4 catálogos esgotados já são 800 euros…

  3. adelia riès diz:

    Caa por mim gostaria de os ter.

  4. nanovp diz:

    Bem imaginado Manuel, mas melhor é saber estas deliciosas histórias de bastidores, tão bem contadas aqui…É caso para dizer que já não os fazem assim…

Os comentários estão fechados.