A Bíblia de Marc Chagall

 

 

Marc Chagall nasceu atrás do sol-posto, numa aldeola da Biolerússia. A família teria as suas posses: estudou em São Petersburgo e em Paris. E foi pela luz e liberdade de Paris que trocou a pátria dos sovietes, em 1923. Deixemo-lo habituar-se à cidade.

capa

ah, que livrinho tão bem proporcionado

 

Peço-vos que olhem, entretanto, para a harmonia das proporções deste livro. Tem 10 cm de largura, por 15,5 cm de altura. A capa cartonada dá-lhe solidez, sem lhe roubar elegância. Tinha uma sobrecapa que lhe tirei e perdi. A ausência de título e autor desafia e intriga mais do que ofende o leitor.

Podemos rodá-lo onanisticamente numa só mão. Rodemo-lo:

lombada CM

Uma lombada de 5 cm? Uau.

São 5 cm de lombada. Para lombada é um belo músculo. E, ainda assim, por pudor dir-se-ia, é uma lombada que quase esconde a monumentalidade do abraço forte e rijo às 440 páginas com as quais se funde.

MCcontracapa

O livro aberto

 

Já podemos voltar a Marc Chagall. Está numa esplanada de Montmartre a conversar com um dealer – e o que a humanidade não deve ao dealer! Este é um dealer de arte, dir-me-ão, galerista e editor. Não é nenhum imoral e escuso dealer de rua. Pois sim, perguntem ao Pedro Norton o que é que ele pensa de galeristas e editores.

Ora, este dealer chama-se Ambroise Vollard, e é mesmo galerista e editor. Neste fim de manhã de 1931, Vollard pede a Chagall, pagando bem já se vê, que lhe pinte temas bíblicos, para uma futura bela edição.

Chagall pode falar francês, mas é em iídiche e russo que se ouve a si mesmo. Pede a Vollard que lhe pague uma viagem à Palestina. Vollard é um mãos largas e Chagall vai para lá dois meses. A sua medula judaica exulta. Roça a testa pela pedra dura do Muro das Lamentações e passa a ter a Bíblia na fissura dos seus lábios. Uma fina espuma poética. Os beijos que beijam a boca dele já são os beijos do Senhor. Aleluia.

Falta-lhe que as suas mãos O agarrem, pela fímbria do manto, pela omnipotente cabeça. Amen e agarrou. Marc Chagall, como um obsessivo leão de Judá, a guaches, aguarelas, tinta-da-china, óleos, numa discreta e indiscreta explosão de cores, mergulha na Bíblia.

Será o modernismo um carro com marcha-atrás? Chagall manteve um pé na vanguarda, mas, durante 25 anos, as suas mãos nunca mais largaram a Bíblia. Pintou 105 obras, que entregou, em 1957, ao sucessor de Vollard, morto entretanto. Tinha, pelo meio, havido a Guerra, Hitler, o holocausto.

Este meu livrinho é um sucedâneo do de 1957, que não conheço. Editaram-no, em 2005, as Éditions du Chêne, escolhendo três livros bíblicos – Génesis, Exodus e Cântico dos Cânticos – que ilustraram profusamente com a reprodução das obras de Chagall, ou de extraordinários pormenores delas.

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Um arco-íris a pedir conversa

 

E agora sentem-se aqui comigo a conversar. Sabem do que é que eu gosto? Do olhar fantasioso e infantil de Chagall. Estas obras foram concebidas por um miúdo, um miúdo que a banhos de judaísmo encontra, ou fortalece, o seu eu, a sua fantasiosa intimidade. Basta olhar para “Noé e o Arco-Íris” para acenarmos que sim, com a cabeça. Há um adulto, chamam-me a atenção, por trás da “Benção de Moisés a Josué”? Há sim, têm toda a razão. Há e é místico. Ora, já se sabe, como o místico obnubila tudo. E ainda para mais um místico que passou horas, em Amsterdam, a contemplar, com olhos de Espinosa, a pintura piedosa de Rembrandt e El Greco.

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um centáurico Moisés

 

Eu volto ao meu Chagall menino. Bíblico embora, ainda não se apagou nele o paganismo e há, por ali, algum cabelo grego, um ou outro encaracolado ateniense a enrolar testas. O puro Deus monoteico ainda convive com figuras híbridas, seres de duas cabeças, alados, alguns pares de cornos mitológicos. E mesmo o Moisés que vai buscar as tábuas da Lei é, afinal, um centáurico Moisés.

É assim que está pintado, ao lado do que já estava escrito.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a A Bíblia de Marc Chagall

  1. EV diz:

    Que lindo livro tão bem contado. A ver se o apanho.

    Ps: Acho que vou pedir a Vollard que me ofereça essa viagem: também gostava de escrever poemas e textos de temas bíblicos em língua portuguesa pensada no estrangeiro.

  2. Beatriz Santos diz:

    Não sei como descobrem estas coisas interessantes que não servindo para nada são tão úteis.

  3. riVta diz:

    bem bonito sim senhor

  4. Ilusões consumidas:

    Consuming illusions made from hysteria and swallowed tongues
    Devoured by doubt, conducting arts of misconception
    Testimonial sufficiency declaring numbness of all perceptions

  5. Maria João Freitas diz:

    Manuel, que texto tão bem pintado. E que gosto deu lê-lo.

  6. Que grande viagem esta história, Manel. Fica uma pessoa a ver tudo de perto como num filme em ecran grande e sala escura. Muito perto.

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