A mais pequena editora do mundo

Esta foi a minha primeira editora, a mais pequena editora do mundo

mas que raio de edi­tor sou eu?
capí­tulo 6

capa a

Estava quase a acabar o século XX, já eu levava sete anos de ganhar a vida na SIC, deu-me o que Billy Wilder e Marilyn Monroe imortalizaram como o seven year itch. Uma comichão do caraças: o doutor Balsemão que me desculpe, mas a SIC já não me bastava. Viajava de Los Angeles ao Rio ou Hong-Kong e ao pequeno resort saudita e da máfia russa chamado Cannes, das duas às seis da matina programava cultura de alto lá com ela nas “Noites Longas da SIC”, enquanto a minha escolha de filmes e séries nos horários de mainstream merecia o generalizado enjoo de grávida dos críticos selectos – uns mal-fodidos achava eu, de tanto os ver vomitar.

Não se mama o maternal leitinho cristão em vão e eu andava cheio de culpas e dinheiro nos bolsos, que ninguém me aturava. Tinha dois amigos como talvez nunca mais venha a ter e fundei com eles uma editora.

logo

O logo era uma romã desenhada pela Teresa Conceição e a nova casa de fazer livros chamou-se Três Sinais, uma vez que as autoridades competentes não nos autorizaram a chamar-lhe “Sinais de Fogo”. Não só não desminto, como confirmo: animava-nos um certo espírito seniano, leitores e desaustinados admiradores que éramos do autor de “Conheço o Sal e Outros Poemas”.

Dona Mécia de Sena, quando, em 1986, fiz com ela o livrinho dos textos de cinema do seu marido, dera-me a ler uns 50 poemas inéditos de Sena. Eram poemas satíricos e violentos. Poemas de escárnio e mal-dizer ditados pela revolta e por um amargo sentimento de injustiça. Disse a Mécia de Sena que os queria publicar, se ela achasse, como eu achava, que era tempo. Achou que sim, que, a fechar o século em que Sena vivera, era tempo de dar a ler poemas que não queriam deixar (e não deixaram) impune a mesquinhez, a canalhice, a aleivosia, a pesporrência do mundo cultural – e em particular do mundo literário português. Ia nascer o póstumo e (até agora) último livro de poemas Jorge de Sena, “Dedicácias”.

rosto

A Três Sinais era a mais lúdica das editoras – reclamava mesmo ser “a mais pequena editora do mundo”. Queríamos fazer um ou dois livros por ano, mas queríamos que os livros fossem preciosidades editoriais. Mandámos às urtigas todas as regras e fizemos uma edição de arromba, cagando de alto para a circunspecção e austera compostura que os próceres da edição  recomendavam.

Sena, enquanto escrevia, para se inspirar ou por puro automatismo, fazia desenhos, rabiscava papel. Já não sei se pedi ou implorei, só sei que  Mécia de Sena me deu esses desenhos para ilustrar a edição.

Trágico-Maritima

Com os desenhos e com os poemas, o Luís Miguel Castro, nosso tão criativo e ocioso artista gráfico, paginou um livro gigantesco, de 30 por 30 centímetros, que fomos fazer, por ser a única com máquinas para a dimensão da capa, à Gráfica de Coimbra, dirigida por um dinâmico padre, de quem até o diabo teria inveja, e com a competência técnica do senhor Manuel Gândara a ajudar-nos entusiasticamente na escolha do pano para a capa, do Munken de 150 gramas como papel e por aí adiante.

Fizemos este livro, de que tirámos 2.100 exemplares numerados. A moeda ainda era o velho escudo e vendêmo-los por 15 contos cada um, com um sucesso que provocaria ataques cardíacos em série a qualquer artista romântico. Reparem, tinha guardas em carne viva, tal qual os poemas sanguíneos com que Sena se atirava a Nemésio, a Cesariny ou a Gaspar Simões.

guardas

Era luxo por fora e fogo por dentro, um fogo de fazer arder Portugal, um fogo de queimar as nossas vergonhas, sobretudo, como este poema cruamente diz, a vergonha de tão pouco e tão mal amarmos em Portugal.

como a Vida

Como a vida fode as mulheres mais
do que um exército de caralhos. E lhes pela
a cona da alma. Nada resta
senão a córnea, egoísta, bruta, seca
vagina recalcada para o dia a dia
e um brilho de amor teimoso e raiva de senti-lo
ao canto dos olhos com que se mordem
num só relance fugidio quanto alargue
o horizonte para lá do gosto de mandar,
torcer, impor, despedaçar quem seja
mais que um osso esburgado na caverna delas.
A mulher vaca, a mulher girafa, a elefanta,
a eléctrica, a macaca, a mesma gente,
até a Vitória de Samotrácia, se casasse,
acabava nisto. Oh infelizes conas. 

Este poema tão desapiedado e descrente, a que nenhum amor sobrevive, escreveu-o Sena a 1 de Maio de 1970. O livro onde primeiro se publicou foi em “Dedicácias”, o primeiro livro da minha primeira editora, editado em Novembro de 1999, um mês antes de virar o milénio.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a A mais pequena editora do mundo

  1. onésimo diz:

    Comprei o meu exemplar. Um bonito volume.
    Um dia emprestei-o e ele evaporou-se. Ignoro quem o tem.
    Felizmente tenho os originais. Ou melhor, cópia do original que também a D. Mécia me deu em 1980 quando por lá andei num verão a leccionar na Universidade da California Santa Barbara.
    Não está tudo nesse volume que editou e tenho a certeza de que sabe disso. Mas estou a cumprir uma promessa que fiz de não dar cópia a ninguém. Se a D. Mécia não deu tudo, ela é que é Dona. De prefixo e de depositária.
    Um abraço ao grande editor da mais pequena editora de grandes livros.

    • Onésimo, já há uma edição regular na Guerra e Paz. Se não a tem, tenho de lha mandar. É como diz, e a Mécia escreve na nota de apresentação, publicámos 40 dos 48 poemas existentes. Eu gostaria de os ter publicado todos.

      • onésimo diz:

        Creio que tenho essa outra edição, mas a primeira é que era coisa de se ver.
        Terei de ver se a biblioteca da Brown tem porque tem de adquirir pelo menos essa edição regular. Vou verificar já via Internet antes que me esqueça.

  2. EV diz:

    Isto está contado com desassombro! Ri-me logo com a comichão sintomática da culpa… E que lindo, lindo livro.

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