Adeus ao Cinema

His Master's Voice (Still Master of What?)

His Master’s Voice (But master of what?)

O apogeu de Godard terminou há quase meio século. Foi em 1967, quando o engarrafamento de “Week End” aniquilava a esperança nos homens e na ficção que eles sonham. Existem várias teorias sobre os motivos da decadência. A mais verosímil é a de que a fulgurante chama artística durou enquanto se manteve o amor do suíço por Anna Karina. Fizeram oito filmes juntos – o último em 1967.

Entre 1960 e 1967, Godard estilhaçou os códigos narrativos, presidiu às exéquias do período clássico, marimbou-se para a lógica do campo/contracampo, tornou a montagem orgânica como o rasto de um insecto e os passos de um dançarino, afogou o romantismo (“O Acossado”), reergueu-o das margens com génio gráfico, colagens, som, infinita invenção (“Pierrot le Fou”) e espraiou-se na febril mas fúnebre sensualidade do Cinemascope (“O Desprezo”), até nada mais restar – só ideologia, didactismo e, no fim, o silêncio.

Nas últimas quatro décadas, houve fogos fátuos – “Passion” em 1982; “Nouvelle Vague” em 1990; o belíssimo (se bem que necrófilo, mas qual é o mal, e qual é o bem?) “Elogio do Amor”, em 2001. “Histoire(s) du Cinema” é o percurso de uma década, e exibe, pelo menos, uma tentativa de exegese apócrifa, como um beneditino que bate a porta do convento e roga pragas para sempre, embora continue a sonhar com a prece.

“Adeus à Linguagem” tem sido incensado por alguma crítica como festa dos sentidos e refundação semiótica. Caso apreciem a verborreia metalinguística ora casual (um homem defeca na sanita enquanto pesponteia de anjo da morte à moçoila de lábio fendido), ora solene (um canídeo percorre riachos ao som da “Valse Triste” de Sibelius, embora também aproveite para defecar pelo caminho), este é o vosso filme.

Lembrem-se porém que as mulheres de Godard são agora mancos fantasmas, depósitos estéreis de palavras, enquanto os homens citam Valéry e Walter Benjamin à frente do ecrã de um LCD onde a “chuva” passa (será a morte da palavra também a morte das imagens?). Os homens e as mulheres eram a carne da arte de Godard. A única carne que lhe interessava, mesmo se traduzível por signos à porta de um comício. “Adeus à Linguagem” é o cadáver do cinema de Godard, e não é sequer o excerto de um “cadavre-exquis”. O facto de a crítica convencional gritar hossanas apenas reforça o enterro, e o embaraço.

Há melhores maneiras de um gajo se enterrar.

(versão longa de crítica publicada na revista Sábado)

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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Uma resposta a Adeus ao Cinema

  1. nanovp diz:

    O trailer é ainda sedutor….voltei a gostar de rever o Pierrot e o Mépris, que continua a ser uma obra especial para mim…mas sinto-me sempre inacabado em Godard.

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