Coisas do Diabo

 Fernando Botero, Homenagem a Bonnard, 1972

Ao princípio estranhara. Ao tempo, achava que já tinha provado de tudo o que lhe podia dar o prazer da sua carne na carne de uma mulher. Fantasias tivera-as aos rodos, daquelas que faziam o Oshima parecer um menino de coro e que há muito tinham deixado de o ser porque vividas até ao tutano. Dos relatos dos seus amigos das pândegas das sextas-feiras, também não vinha nada de novo. Apenas mais do mesmo. A verdade é que nenhuma das mulheres que tivera – e já não se lembrava se desistira de as contar depois da quinquagésima ou se daquela vez em que lhe apareceram quatro à porta de sua casa – lhe tinha feito uma exigência daquelas. Estranhara mas aceitara as regras do jogo. E acabou mesmo por se excitar com a ideia. Afinal de contas, pensou ele, sabia que tinha um talento especial para satisfazer todos os caprichos sexuais delas. E este, ao contrário de outros, nem era de todo irracional. Ela explicara-lhe que, por ser uma mulher casada, só podia ser assim. Uma vez por mês, sempre à quarta-feira à tarde que era quando o marido estava fora e ela tinha a sua folga semanal. Sempre na banheira, onde ela o esperava de corpo imerso. Para que não se sentisse suja e as impurezas daquele prazer proibido fossem todas pelo ralo abaixo logo que ela saísse do transe. Só podia ser obra do diabo, dizia-lhe ela, aqueles estremeções que lhe percorriam o corpo todo. E ele acreditava nela, quando ela lhe jurava que com o marido, homem temente a Deus, não havia nada daquilo. E ele tinha de se depilar todinho, com o cabo e as lâminas que ela lá tinha guardado só para ele. Ou melhor, ele depilava-se até onde o seu braço alcançava e deixava-lhe a ela – e que prazer tinha ela nisso antes do outro prazer que aí vinha! – a minuciosa tarefa de remover as pilosidades traseiras. E ele já se habituara ao riso que tomava conta dela no momento da extracção daqueles tufos redondos que enfeitavam as suas nádegas (que eram enfeites, isso era coisa dela, porque ele nunca lhes conseguira por a vista em cima, nem através do espelho que havia lá em casa). Um riso que vinha assim em convulsões e que só podia ser uma espécie de preparação mental para as convulsões subsequentes. Tinha de ser assim porque com ela, mulher casada e também temente a Deus, nada a podia fazer sentir uma cadela com cio. E, enquanto não desaparecessem aqueles pelos todos que eram o orgulho da virilidade dele, era assim que ela se sentia.

Ele estranhara ao princípio. Mas agora não se queixava. Sentia-se bem naquele papel de diabo. Só tinha pena de a coisa só acontecer uma vez por mês. Tinha de ser assim, dizia-lhe ela. O pelo tinha de voltar a crescer para ser arrancado como uma erva daninha.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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7 respostas a Coisas do Diabo

  1. Teresa Conceição diz:

    Diogo, que gosto rever esta história.
    Faz parte de uma bela colecção de shorts…em calções ou nem por isso 🙂

    • Diogo Leote diz:

      Teresa, a história pode ser revista mensalmente. Tudo acontece uma vez por mês, sempre a uma quarta-feira. Numa banheira por aí.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ainda me lembrava desta, tipo a antiga barbearia do bairro. Well done, man.

  3. Satã vem em granulado:

  4. Diogo Leote diz:

    É o diabo, sim. Mas falta-lhe a água purificadora da banheira.

  5. nanovp diz:

    É sempre bom dar tempo ao tempo, neste caso dar tempo ao pelo…

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