Era uma vez uma história

 

A história que eu queria contar não pode ser contada porque está fechada em casa.

Não é que ela o deseje: a casa das histórias é que hoje não abriu as portas. Nem as janelas. É uma escuridão total lá dentro. Terá sido feitiço? Ou alguém perdeu as chaves?

aos trambolhões

pauta de exclamações, desenho e colagem de tc

Ninguém sabe. Anda tudo aos encontrões. E como o corpo das histórias é feito de letras flutuantes, e as roupas de frases inteiras, no escuro as palavras tropeçam umas nas outras, misturam-se e espalham a bijuteria: os pontos finais saltam para os inícios, as exclamações aparecem de surpresa, e as interrogações andam perdidas à procura do sítio certo.

          O pior é que a história que eu queria contar era acabadinha de nascer, nunca tinha ido à rua nem nada. Estava a acabar de se vestir e ía lavar a cara quando a confusão começou. Nem teve tempo de aprender a fazer perguntas e já três ou quatro histórias esbarravam nela e se enleavam como novelos. 

nova roupa velha

nova roupa velha, desenho e colagem de tc

        Ainda por cima a minha história tinha um vestido novo, por estrear, com título e tudo. Era uma história vaidosa, com mania de ser original.

E o que mais a enfurece agora é ninguém lhe ter visto a criativa farpela, (nem uma fotografia!…) e ter de sair à rua vestida com palavras e frases já usadas. 

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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7 respostas a Era uma vez uma história

  1. Emilio romero diz:

    Terese, és uma boa malabarista do verbo; suspeito que tens muita coisa na tua bagagem, material completamente nu, sem outra cobertura que tua pele. Um abraço

  2. ERA UMA VEZ diz:

    Que gira que gira que gira !!!

    E que bom encontrar alguém que não alinha como MOI/JE na “história” escrita “estória”. Mas isso é outra história…

    (Blheeeque, como diriam as minhas miúdecas)

  3. Obrigada pelo entusiasmo, Era Uma vez.
    Ainda por cima com uma história de título meio roubado ao seu nome…

  4. Beatriz Santos diz:

    Muito original, esta histórinha

  5. EV diz:

    Que bonita a história das histórias que não se conseguem contar… Acho que vou contá-la aos meus sobrinhos.

  6. Jaime Duarte diz:

    Nunca gostei tanto de uma história sem história…Esta encantou-me.

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